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Seção Entrevista
25/10/2018 - 19:47:05
Bate-papo com Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil
Por Juliana de Moraes e Matheus Medeiros
Divulgação

Atrás apenas dos japoneses, os profissionais brasileiros estão entre os mais estressados do planeta, segundo levantamento da International Stress Management Association (entidade internacional que estuda o stress).

E não é para menos. Nos últimos anos, a crise econômica, o desemprego e um cenário político extremamente incerto, além do embate social acirrado em períodos de eleições, levaram o país a um clima cada vez mais tenso. Tom Jobim, há muito, já dizia que o país não é para principiantes.

Fato é que isso faz mal às pessoas, à produtividade e às empresas. Levantamento do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), realizado entre 2012 e 2016 e fornecido pelo MTE (Ministério do Trabalho), mostra que os transtornos mentais são a segunda maior causa de doenças relacionadas ao trabalho no país – entre os transtornos mentais, 51,4% estão relacionadas a "Stress Grave" e 44,24% a "Depressão/Ansiedade".

Dado este cenário, conclui-se que a pressão para entrega de resultados num ambiente hostil é a receita certa para levar os profissionais ao quadro de burnout, que é a estafa, a depressão severa causada pelo stress e que praticamente incapacita para as atividades do dia a dia no trabalho.

Um único profissional acometido por burnout traz diversas consequências para a equipe e o negócio. A princípio, a tendência é a proteção por lideranças e colegas, segundo Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil e representante do país na Divisão de Saúde Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA, na sigla em inglês).

"Dada a situação de fragilidade da pessoa, as pessoas se compadecem, mas, com o tempo, o entorno acaba por não dar conta de assumir as funções e falhas resultantes do colaborador deprimido e todos são contaminados por um sentimento ruim que afeta a produtividade do grupo".

Nesta entrevista para o Sincodiv-SP Online, Ana, que é doutora em Psicologia Clínica e Comunicação Verbal, mestre em Comunicação de Massas e em Psicologia, com especialização no tratamento do stress e biofeedback na Florida State University e na Menninger Foundation, explica o que caracteriza o burnout e como as organizações podem tomar medidas para evitar que seus profissionais adoeçam, prejudicando o conjunto das equipes e os resultados da empresa.

Confira, a seguir, o bate-papo completo:

Sincodiv-SP Online: Qual a situação do Brasil no ranking internacional de stress no trabalho?

Ana Maria Rossi: O stress afeta 72% dos profissionais brasileiros, o que os torna menos estressados apenas do que os japoneses. Estão equiparados aos norte-americanos e na frente dos ingleses, que ocupam o terceiro lugar no levantamento realizado nos anos 2013 e 2015 pela International Stress Management Association, organização presente em 12 países e da qual sou presidente no Brasil.

De lá para cá, a situação não mudou tanto. A questão é que o stress pode ser positivo ou negativo, conforme a "lente que se usa". Quando a pessoa não vê perspectiva, é tomada por exaustão, ceticismo e acha que seu papel é irrelevante, daí o stress ganha contornos bastante graves, levando ao burnout, que é incapacitante, é a depressão causada pelo trabalho.

Sincodiv-SP Online: Poderia explicar em mais detalhes o que caracteriza o burnout?

Ana Maria Rossi: O profissional passa a acreditar que as demandas profissionais estão além de seus recursos. Não se acha capaz de realizações. Deixa de enxergar um horizonte positivo e vive o sentimento de que está em um beco sem saída, o que em última instância pode levar até ao suicídio.

Por sua ineficácia no trabalho, acaba dedicando-se a longas jornadas na esperança de conseguir dar conta das atividades, mas acaba com margem de erros elevadas e baixa produtividade. A autoestima é extremamente afetada e o profissional se vê como irrelevante para o processo do negócio, como se a sua presença e participação não fizessem diferença para o todo.

Esse conjunto de fatores leva ao isolamento, que inicialmente recebe a compreensão dos colegas de trabalho, mas no médio prazo causa desconforto e discórdia entre membros do grupo.

É necessário tratamento, mas há quem discorde... Além disso, alguns profissionais, de maneira geral, especialmente os do sexo masculino, são relutantes em verbalizar o problema, o que dificulta ainda mais a condução de medidas para a recuperação.

De acordo com levantamento que realizamos pela International Stress Management Association junto a cerca de mil profissionais de São Paulo e Porto Alegre, identificamos que os homens procuram menos ajuda para questões da saúde mental do que as mulheres. A diferença entre eles e elas é da ordem de 35%. Ou seja, trata-se de um dado para as empresas estarem atentas.   

Sincodiv-SP Online: E como um profissional com burnout afeta sua equipe?

Ana Maria Rossi: Asseguro que, rapidamente, o esforço de resgatar a pessoa adoecida pelas pessoas da equipe de trabalho se transforma em um problema cercado de ressentimento. A baixa produtividade do indivíduo afeta o grupo, que num primeiro momento assume suas funções na intenção de proteger o parceiro. O grupo se sente comovido, mas acaba também afetado pela sobrecarga de trabalho, pois passa a assumir as atividades que não lhe compete por um longo período...

Já o profissional adoecido se sente culpado, mas incapaz de se livrar da situação. Não é incomum que entre em licença médica e na volta a situação fique ainda mais crítica. Ou seja, sem um bom tratamento e um olhar cuidadoso para a questão, todos saem prejudicados, especialmente a empresa.  

O ideal é que haja o investimento em prevenção! E o assunto está ganhando espaço no centro das discussões relacionadas às doenças do trabalho, tanto é que, em 2017, um congresso do TST (Tribunal Superior do Trabalho) incluiu o tema Saúde Mental na pauta pela dificuldade que os juízes têm tido para avaliar o tema, que afeta cada vez mais a saúde dos trabalhadores e também, por que razão não dizer, das empresas.   

Sincodiv-SP Online: Quais fatores podem conduzir um profissional a um quadro de burnout?

Ana Maria Rossi: A falta de reconhecimento no trabalho, cargas excessivas de horas dedicadas às atividades profissionais, falta de justiça nas relações internas com lideranças e colegas (exposição à politicagem), a violação aos próprios princípios e valores em nome do sucesso de uma iniciativa, ou seja, a afronta à ética são elementos que podemos considerar como gatilhos do burnout. Mas não só.

A capacidade de suportar a pressão ou de tomar uma iniciativa para evitar a depressão causada pelo ambiente de trabalho é bastante individual e um fator determinante também. Existem pessoas e pessoas. A estrutura e robustez emocional de cada um interfere na forma como um profissional assimila e digere um determinado evento ruim, por exemplo.

É aí que entra a área de RH (Recursos Humanos) da empresa no preparo de suas lideranças para que sejam capazes de reconhecer os sinais de burnout entre os profissionais e também estejam habilitadas a desenvolver em membros de suas equipes os recursos de resiliência.

Sincodiv-SP Online: Como é possível uma empresa fazer a avaliação do stress ocupacional?

Ana Maria Rossi: Existem baterias de testes que, aplicadas junto aos profissionais, podem identificar o público em estado de depressão laboral e também a probabilidade de as pessoas virem a adoecer no espaço de cerca de um ano.

Os resultados apontam índices. Resultados com indicação acima de 50% sugerem um quadro de maior chance de desenvolvimento da doença, mas, claro, esses são dados baseados na percepção da própria pessoa. 

Uma avaliação individualizada, que envolve a medição de sinais vitais – como a respiração, temperatura periférica e frequência cardíaca – vai confirmar, ou não, essa probabilidade, permitindo que a empresa e o profissional façam uma análise do quadro e adotem medidas preventivas para que eventos do dia a dia do trabalho não detonem o gatilho de um burnout.

Para ler a segunda parte do Bate-papo com Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil, clique aqui.

 

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