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Seção Entrevista
15/03/2012 - 14:41:50
II PARTE: Bate-papo com Araquém Alcântara, fotógrafo, aventureiro e autor
Por Renan de Simone e Juliana de Moraes
- Sincodiv-SP/A. Freire Sobre os novos projetos, o fotógrafo confessa que tem planos de estruturar uma espécie de caravana pelo Brasil afora para levar palestras que incentivem jovens de locais remotos a buscarem seus sonhos, especialmente na área da Fotografia.

 

Sincodiv-SP Online: Nem os perigos te fazem desistir? Imagino que em tantos anos já tenha enfrentado algumas situações complicadas.

 

Araquém Alcântara: Devo ter visto a morte de perto umas quatro vezes ou mais, e só sei viver indo até locais onde os homens ainda não chegaram. Até morrer, vou estar no mato! Já peguei malária várias vezes e tive outros tantos infortúnios, mas lembro bem de dois episódios extremos que me ocorreram entre 1996 e 1997, durante expedição para fotografar os sete parques nacionais da Amazônia.

 

Eu estava fazendo um trabalho com tribos, próximo ao Monte Roraima. Precisava sair da aldeia Manalai onde estava, para visitar uma outra, mas o acesso tinha de ser por canoa. O índio que seria nosso guia não estava no local indicado e decidimos, eu e mais duas pessoas, seguir por conta própria.

 

Descíamos o rio Cotingo quando a canoa se perdeu na correnteza e começamos a ser arrastados para a cachoeira. A queda era enorme. Queríamos pular da embarcação e nadar até a margem, mas eu não conseguiria sem estragar o equipamento que carregava. Por sorte, encontrei dois sacos plásticos na minha mochila e embrulhei meu material fazendo uma espécie de bolsa de ar que eu esperava que flutuasse se tivesse que nadar.

 

Mais alguns momentos se passaram e não conseguíamos corrigir o curso da canoa. A queda ficando cada vez mais próxima... Quando falaram de saltar, sugeri que o fizéssemos mais próximo da queda, parecia loucura, mas pouco antes da cachoeira, o rio geralmente se estreita e a margem fica mais próxima, acumulando pedras nas quais se pode segurar. A ideia deu certo e saltamos da embarcação quando estávamos a pouco menos de 30 metros da queda. Caímos de pé na margem, tivemos algumas pequenas escoriações, mas sobrevivemos. Conseguimos salvar até mesmo a canoa antes que caísse.

 

A outra situação foi durante um voo na mesma região do Monte Roraima. O piloto que iria nos levar de uma aldeia à outra se atrasou e chegou quando o tempo parecia estar se fechando. Mesmo sob os meus questionamentos e de mais dois passageiros, ele quis fazer o voo naquela tarde.

 

Estávamos no ar, dentro de um monomotor, quando o tempo fechou e começou uma tempestade fortíssima. Lembro até hoje das gotas grossas escorrendo pelo vidro do pequeno avião e dos raios cruzando os céus. Fizemos um pouso forçado no meio duma vegetação baixa e o avião ficou inutilizado.

 

Fomos encontrados dois dias depois por um cavaleiro de uma fazenda da região que nos levou ao local até sermos resgatados para continuar a aventura.

 

Sincodiv-SP Online: Perdeu dois dias por conta desse acidente...

 

Araquém Alcântara: Nada é perdido. Lembro que logo após a descida do avião, depois de verificarmos se estavam todos bem, olhei para a mata de um verde vivo e vi uns bichinhos de luz própria, uma espécie de vaga-lume. Naquele momento, fiquei paralisado pela beleza do local e me senti bem de novo.

 

Sincodiv-SP Online: Você parece ser guiado pela intuição. Considera ter um lado místico muito forte?

 

Araquém Alcântara: Sim, sou místico. Acho que as coisas acontecem por um motivo. Nenhum encontro é à toa. Sou emotivo também, choro fácil e me sensibilizo. Sigo minha intuição desde jovem, e até agora tem dado certo.

 

Sincodiv-SP Online: Existe algum fato que presenciou e não conseguiu explicar?

 

Araquém Alcântara: Sim, o episódio da mãe-de-fogo.

 

Sincodiv-SP Online: Como foi?

 

Araquém Alcântara: Era final da década de 70. Eu e mais dois companheiros fazíamos o trabalho que resultaria no livro da Jureia (região de Peruíbe – SP), denunciando a depredação da Mata Atlântica por caçadores e madeireiros. Estávamos já há 12 dias no local e certa noite saímos do refúgio em que nos encontrávamos para pescar.

 

Chegamos à praia, era noite escura, de lua nova. Um dos companheiros, uma mulher, disse que iria dar uma volta e estava se afastando de nós quando vi no céu um objeto cilíndrico enorme, com extremidades que espiralavam e giravam.

 

Ele tinha luz própria e era multicolorido. Chamei o companheiro Vandir, caiçara que conhecia as histórias locais e ele disse que era a mãe-de-fogo, ou o tucano-de-ouro – uma espécie de bola de fogo com cauda de cometa que brilhava por alguns segundos no céu. Naquela oportunidade, porém, a aparição durou cerca de cinco minutos.

 

Longe do abrigo, sem equipamento, só pudemos, os três, admirar o fenômeno. Foi a coisa mais linda que eu já vi. Ele se moveu lentamente e desapareceu atrás do pico do Pogoçá.

 

Poderia ser uma nave, ou mesmo uma das figuras do folclore local, mas era lindo e enorme. De alguma forma senti que estava ali por um motivo e fazendo o trabalho certo. O fenômeno foi quase como uma confirmação daquilo que eu intuía. Sou assim, místico, emotivo.

 

Acho que é algo que está no meu DNA.

 

Sincodiv-SP Online: No DNA?

 

Araquém Alcântara: Meu pai era pescador, muito ligado à natureza e místico. O velho Queco não apenas me mostrou o caminho certo, mas também me acompanhou em muitas aventuras. Como na vez em que fomos para a região da Jureia, na década de 80, para protestar contra os planos de construção de duas usinas nucleares no local, pretendidas pelo governo militar.

 

Saímos de Peruíbe, andamos uns 36 quilômetros a pé e só paramos em plena Jureia, na praia de Grajaúna, onde as tais usinas seriam construídas. Naquele local lindo, meu pai agarrou uma foto que mostrava os cadáveres das vítimas de Hiroshima e eu fiz a foto.

 

Como que por mágica o material correu o país e intensificou o movimento contra a construção das usinas. Meu pai aparecia na imagem como um profeta de um desastre futuro que não aconteceu por conta dos protestos. Hoje a praia da Grajaúna faz parte da reserva ecológica da Juréia.

 

Sincodiv-SP Online: Fale um pouco mais de Manuel, seu pai.

 

Araquém Alcântara: O velho era um ser especial. Aos dez anos saiu de casa, em Itajaí, Santa Catarina, para correr mundo. Foi um pouco de tudo, cozinheiro de navio, caçador de tesouros na costa, andarilho. Seu único luxo era manter os sapatos mais ou menos em dia para poder entrar nos cinemas. Em Santos, era pescador, sempre amante da natureza.

 

Meu pai me ensinou muita coisa, foi um marco na minha vida, não só pessoal, obviamente, mas também ajudou a trilhar os meus caminhos profissionais. Meu pai faleceu há cerca de 15 anos, com 86 anos.

 

Sincodiv-SP Online: O que aprendeu, afinal, em todas essas andanças?

 

Araquém Alcântara: Respeito pela natureza, buscar o que se gosta e denunciar aquilo que é errado. Aprendi que sempre vale a pena conhecer locais onde ninguém pisou e descobrir novos mundos. Na vida, o que importa é estar feliz. E estar feliz significa batalhar duro. O sucesso vem do suor.

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação