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Seção Entrevista
12/04/2012 - 12:37:54
II PARTE: Bate-papo com a bailarina Ana Botafogo
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Sincodiv-SP/A. Freire "No futuro, planejo, por meio de um instituto sem fins lucrativos, me dedicar à formação de talentos da dança no Brasil e colocar o país no circuito de dança internacional. Acredito que este pode ser meu legado!"

 

Sincodiv-SP Online: Como foi sua formação profissional aqui e fora do Brasil (França e Inglaterra)?

 

Ana Botafogo: O ensino de ballet no Brasil é maravilhoso! Estamos formando profissionais de ponta que fazem muito sucesso no exterior. Escolas internacionais pegam nossos bailarinos que estão quase prontos para concluir a formação deles no exterior e levar os louros.

 

Quando fui para o exterior, era uma das alunas mais promissoras da minha escola no Brasil. Tive até uma professora brasileira na escola de dança francesa. Tive aula com ela e outros. Saí daqui como uma das melhores para me juntar a tantas outras excelentes, num lugar onde eu era apenas uma dentre tantas. Além disso, tinha a sensação de que era enorme de gorda. As outras eram tão magras! Ao poucos é que fui, digamos, secando, por conta do treinamento de uma bailarina profissional.

 

Esse foi o grande diferencial: cheguei à sala de aula e percebi que não era a melhor, portanto, tive de ter muita garra para tentar vencer tudo o que era deficiente na minha formação. Trabalhei muito até chegar à companhia profissional. E, no final das contas, é assim até hoje! Sempre estou tentando melhorar algum passo.

 

As escolas por onde passei não eram como a Ópera de Paris, em que as bailarinas eram absolutamente iguais nas formas, nos tamanhos, mas o ensino das companhias francesas era muito bom e voltado para a atuação profissional. Pude viver esse momento e me aperfeiçoar, especialmente na companhia do coreógrafo Roland Petit, que ficava apenas atrás da Ópera de Paris em termos de importância na França.

 

No Centro de Dança Internacional Rosella Hightower também aprendi muito. Na Inglaterra, fiquei seis meses com visto de estudante (não consegui permanecer profissionalmente), retornando ao Brasil, já para atuar profissionalmente.

 

Permaneci dois anos e meio na Europa. Quando voltei, o Theatro Municipal do Rio estava fechado... em reforma, sem apresentações de ballet.

 

Aqui, meu primeiro convite surgiu para eu ir ao Teatro Guaíra, em Curitiba (PR). Lá, fiz meus primeiros espetáculos para o público brasileiro. Dois anos e meio depois, vim para a Fundação de Ballet do Rio de Janeiro, uma companhia que tinha elementos profissionais, o que me ajudou muito a ingressar no ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Aliás, quando consegui a posição de primeira bailarina, uma de minhas colegas, era a minha primeira professora, àquela da escola da Urca. Foi tão interessante poder reencontrá-la!

 

Sincodiv-SP Online: Você, em algum momento, pensou em seguir outra profissão?

 

Ana Botafogo: A carreira de ballet é difícil. Trata-se de uma vida de renúncias, de opções, de entrega ao dançar. Sobretudo no Brasil, essa dedicação é fundamental. Depois que entrei para companhia de ballet na França tive certeza absoluta de que dançar era o que eu queria. Quando retornei ao Brasil, ainda tentei retomar a faculdade de Letras lá em Curitiba, depois transferi para o Rio, mas não, nunca mais pensei em seguir outra carreira além do ballet.

 

Quando entrei no Municipal do Rio em 1981, minha dedicação era tão intensa que perdi a vontade de continuar a insistir na faculdade de Letras. Mas retomei... e conclui em 2009. Foi depois de participar da novela do Manoel Carlos.

 

Quando escolhi Letras, pensava em fazer tradução simultânea. Mas havia outra faculdade que eu pensava em fazer: Astronomia!

 

Queria ficar nos ares (risos), seja dançando ou observando as estrelas! Enfim, uma coisa é fato, jamais imaginei que tomaria o rumo que tomei. Foi batalhado, mas não tão planejado.

 

Sincodiv-SP Online: De todos os países nos quais se apresentou, houve algum que marcou pela receptividade, originalidade na forma de relacionamento com o público?

 

Ana Botafogo: O público mais caloroso é o cubano! Sim, Cuba. O país tem tradição em ballet, com festivais pelo país. O povo é tão receptivo e caloroso.

 

A relação que os cubanos têm com os bailarinos é a mesma que nós temos com os jogadores de futebol. Eles são fãs, organizam fãs clubes, levavam cartazes, jogavam flores! É bem diferente e divertido.

 

A bailarina cubana Alicia Alonso, além de transformar o ballet Nacional de Cuba em uma grande potência, teve um papel importante na formação do público! Criou uma cultura da relação do povo com a dança. Eles são experts em ballet!

 

Existem públicos realmente diferentes. Na Inglaterra, o público é super europeu, digo, sério, mas admirável. Foi especial para mim. Retornei ao país anos depois como primeira bailarina do Municipal do Rio convidada do Royal Ballet de Londres, depois de ter permanecido no país apenas como aluna. Senti uma satisfação pessoal, especialmente considerando o fato de que eu havia tentado, mas não consegui obter o visto de trabalho no país!

 

Na Itália, com o ballet Coppélia, em que substituí uma bailarina que não pôde dançar, fui tão bem recebida, tive críticas tão favoráveis, que a experiência também marcou.

 

Sincodiv-SP Online: Em seu site, na introdução sobre você, há uma frase que diz que todo artista pertence ao seu país, devendo dar exemplos e motivar novas vocações. Foi por essa crença que você retornou ao país na década de 70?

 

Ana Botafogo: Achei que era importante ter um lar. Fazer carreira em um lugar. Na realidade, quando não se escolhe um país, não se faz uma história.

 

Meu primeiro marido era bailarino de origem inglesa – tive de fazer as pazes com os ingleses (risos). E cheguei, inclusive, a pedir licença do Municipal para morar em Nova Iorque. Mas até ele apontou que o melhor a se fazer era voltarmos. Eu tinha seis anos de Theatro Municipal e a continuidade é o que faria meus esforços terem sentido. É por isso que sou conhecida. Escolhi um lugar para mim e para minha carreira.

 

Durante 30 anos viajei de leste a oeste do país! Agora, cada vez mais, estou me afastando dos palcos.

 

Sincodiv-SP Online: Hoje, como é sua rotina? Quantas horas dedica-se à dança?

Ana Botafogo: Ainda é bastante intensa. Uma hora e meia pela manhã e mais três horas, três horas e meia na parte da tarde. Depois, faço pilates. Ao todo, são de cinco a seis horas diárias de dedicação, sem jamais ter tido que operar nada em meu corpo! Sou a favor do exercício preventivo, o que poupa meus joelhos e outras articulações.

 

Para ter ideia da intensidade da minha agenda, neste ano está previsto o relançamento do espetáculo com Carlinhos de Jesus “Isto é Brasil” (de 10 a 26 de abril no Theatro Net Rio, capital carioca) e um novo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro “A Criação” (com apresentações a partir de 31 de maio), com a reunião do coro, orquestra e corpo de ballet da instituição.

 

Em São Paulo, nos dias 01 e 02 de maio, participo da apresentação do espetáculo “6 Suítes para Violoncelo Solo e Dança de J.S. Bach”, idealizado pelo violoncelista Dimos Goudaroulis, no Teatro Alfa (R. Bento Branco de Andrade Filho 722, na capital paulista).

 

Estou num momento de muito trabalho e de efervescência. O grande momento de 2012 será o ballet Onegin (pelo Theatro Municipal do Rio, com estreia em 02 de agosto), que conta a história de um poeta russo, misturando dança com interpretação.

 

Nessa comemoração dos 35 anos (quase 36) de carreira, esse deve ser o último clássico de ballet (já me sinto segura para falar disso). Imagino que seria terminar bem ao fazer dessa forma. Já fiz tantos clássicos, então esse deve ser meu último, o que não me impede de fazer outras pequenas participações no futuro...

 

Sincodiv-SP Online: Um filme que trouxe o ballet para o primeiro plano recentemente foi o Cisne Negro, com Natalie Portman. Lá, apresenta-se um ambiente competitivo, pouco amistoso. O quanto isso é verdade?

 

Ana Botafogo: Esse não é exatamente um filme sobre o ballet, mas um filme psicológico, que retrata uma doença, não uma característica do ballet clássico. Em qualquer profissão, existe vaidade, competição. O ballet, neste caso, foi apenas um meio para o desenrolar do filme. Mas, o ballet foi muito bem retratado no que diz respeito à intensidade das aulas, do esforço, do desgaste emocional, da briga dos coreógrafos com os bailarinos, da pressão. Tudo isso é a nossa vida!

 

Existe disputa sim, não é exagerada como retrata a personagem principal, mas é difícil. É uma disputa saudável porque perseguimos o melhor!

 

O bailarino quer mostrar o seu trabalho ao público. E, para isso, se estressa, passa um pouco de angústia, especialmente quando se é mais novo. Depois, com a maturidade, essa sensação diminui. O novo bailarino, a nova bailarina sempre é vista como uma ameaça. Isso é uma verdade. Vejo isso no dia a dia do Theatro Municipal. Já a direção artística é sempre subjetiva. Cada diretor tem sua preferência e temos que aprender a lidar e conviver com isso porque nem sempre se trata de selecionar o melhor ou a melhor.

 

A cena do filme em que a bailarina mais nova é anunciada em público para ocupar a posição da mais velha não compete à realidade. Não é assim que acontece. A bailarina nova aparece e reveza os papéis com a mais madura, até que a mais antiga sai de cena. E, vale ressaltar, não existe apenas uma primeira bailarina. Este é um título. Existem várias primeiras bailarinas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, por exemplo.

 

Sincodiv-SP Online: Quais as perspectivas para a dança no Brasil, na sua opinião? Haverá uma 2ª dama brasileira do ballet?

 

Ana Botafogo: Há 30 anos, muita coisa mudou. O ensino de ballet se profissionalizou. Mas, em termos de campo de trabalho, há poucas oportunidades no país. O Theatro Municipal do Rio é uma das poucas referências. Muitos jovens bailarinos deixam o Brasil e fazem muito sucesso lá fora. Isso é uma realidade e, caso não haja uma reversão, haverá um permanente êxodo dos nossos talentos.

 

Meu sonho é poder reverter essa situação, inserindo o Brasil no circuito internacional. Quem sabe quando eu me aposentar, vou poder me dedicar a um instituto para promoção da profissão e jovens bailarinos, inserindo o Brasil de forma mais consistente nos festivais internacionais. Temos bailarinos brasileiros brilhando na França, na Alemanha, na Inglaterra, nos Estados Unidos. E eu queria que pudéssemos conhecer todos esses talentos aqui.

 

Em relação à personalidade Ana Botafogo, digo que trabalhei bastante para conseguir meu lugar ao sol. Talentos não faltam. E eles terão que fazer como eu!

 

Sincodiv-SP Online: Para terminar... você já tem previsão para suas férias nos Alpes (uma vez Ana Botafogo disse que a primeira vontade que realizaria após aposentar as sapatilhas seria esquiar)?

 

Ana Botafogo: Ahhhh, não sei! Ainda não tenho previsão (risos). Digo sempre que só faria atividades de risco após a aposentadoria porque sempre morri de medo de me machucar seriamente – dependo da saúde do meu corpo para trabalhar. Nunca tive coragem de esquiar, nem na água.

 

Não tenho uma previsão ainda para essas férias, mas em 2012 pretendo, como disse, encerrar minha participação em grandes clássicos, com o Onegin, pelo Theatro Municipal do Rio. Acho que agora já posso falar. Deve ser um lindo ballet para encerrar esta etapa.

 

Começa o momento de eu me doar aos jovens bailarinos. Não tenho recursos para ajudar individualmente, mas por meio de um instituto sem fins lucrativos vou poder me dedicar à formação de talentos da dança no Brasil, e colocar o país no circuito de dança internacional. Acredito que este pode ser meu legado depois de tantos anos de dedicação a uma carreira que segui com apego carinho e paixão!

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação