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Seção Entrevista
12/04/2012 - 12:32:06
Bate-papo com a bailarina Ana Botafogo
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Sincodiv-SP/A. Freire Ana Botafogo completou 35 anos de carreira. Ela é primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Pessoa pública que dispensa apresentações, Ana Botafogo, além de bailarina na profissão, também o é de corpo e de alma. Na suavidade dos gestos, na delicadeza das palavras, ela transmite com firmeza sua determinação à arte da dança – responsável por torná-la a primeira bailarina (de fato) do Theatro Municipal do Rio de Janeiro –, “pero sin perder la ternura”, fator, este último, determinante para que seu nome transcendesse os palcos do ballet clássico, transformando-a na bailarina mais conhecida, reconhecida e popular do Brasil.

 

Nesta entrevista ao Sincodiv-SP Online, Ana fala sobre seus projetos profissionais, apresentações previstas para 2012, sua história e dedicação à arte, seja de dançar, escrever, atuar, coreografar. Uma coisa é certa, esta “pequena notável” de nossos tempos, que já cruzou fronteiras e poderia dedicar seu brilho a tantos palcos espalhados pelo mundo, escolheu o Brasil e nele empreende, incansavelmente, para inspirar jovens talentos e promover o belo, que se traduz em forma de movimento, de dança, em forma de ballet clássico!

 

Sincodiv-SP Online: Pela primeira vez em 35 anos de carreira você assina a coreografia de um espetáculo teatral e conta a história de uma das mulheres brasileiras mais importantes da história do país, a psiquiatra brasileira Nise da Silveira. Como tem sido esta experiência?

 

Ana Botafogo: O convite para criar e dirigir a coreografia do espetáculo “Nise da Silveira: Senhora das Imagens” foi uma surpresa para mim. Tanto pelo desafio de trabalhar numa peça teatral, como também pelo fato de a atriz Mariana Terra, que é a responsável pelo monólogo, já ter praticado dança, o que facilitou muito todo o processo. A peça, que tem a direção de Daniel Lobo, é uma grande coreografia que une teatro, dança, vídeo e canto para retratar a grande médica psiquiatra. Nise transformou o tratamento da esquizofrenia, humanizando-o, propondo uma leitura dos pacientes por meio da produção artística.

 

O resultado deste trabalho saiu melhor que o esperado, tanto é que houve a prorrogação da temporada paulistana. Incialmente estava prevista para se encerrar em 29 de março, agora o espetáculo estará em cartaz até o dia 10 de maio de 2012, no Teatro Eva Hertz, no Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073), na capital paulista.

 

Sincodiv-SP Online: Essa não é a primeira vez que “se aventura” em novas atividades. Também já atuou, escreveu livros (como Ana Botafogo na Magia do Palco) - dirigiu coreografia... O que motiva a arriscar-se em outras áreas?

 

Ana Botafogo: Pois é (risos)! De fato... durante toda a vida profissional me dediquei ao ballet. Em 30 anos da profissão e 25 anos de Theatro Municipal do Rio de Janeiro, segui firme no propósito de dançar. Estive muito focada em ser bailarina. Havia essa necessidade. Eu precisava me dedicar para construir a carreira, atuar nos grandes clássicos do ballet. Mas, uma vez que alcancei a maturidade na dança, me permiti ousar porque me senti livre para experimentar outras modalidades, como o espetáculo estreado em parceria com Carlinhos de Jesus, no carnaval do Rio de Janeiro, e até aceitar novos desafios, como atuar em novela.

 

O autor de novelas, Manoel Carlos, depois que havia me convidado para uma de suas obras na TV, disse: “eu te admiro”. De acordo com ele, eu não precisava disso. Pois assumir o risco poderia se transformar em um grande erro para alguém como eu. Ele achou que fui generosa em arriscar e emprestar minha imagem para a personagem, que era uma bailarina.

 

Na época, respondi para ele rindo: agora, que já aceitei, é que me diz isso? Para mim, foi trabalhoso, um grande aprendizado, mas natural porque me sentia madura e reconhecida (pelo público) o suficiente para arriscar novos projetos.

 

Sincodiv-SP Online: Quem é Ana Botafogo? Nasceu no Rio em 9 de julho... Como foi sua infância? Como enveredou para os palcos?

 

Ana Botafogo: Meu pai é médico, minha mãe dona de casa e tenho um irmão (que é casado e tem dois filhos). Vivemos toda a vida na Urca, no Rio, um bairro pequeno da capital carioca. Minha infância toda foi por lá. Inclusive meu primeiro contato com a dança.

 

Meu irmão e eu tivemos a iniciação musical no Conservatório de Música da Urca. Foi ali que começaram também as aulas de ballet. Eu já era da bandinha, quando dei início à dança. A aulas de ballet, veja só, eram dadas por uma bailarina do Theatro Municipal do Rio. Começou com uma brincadeira, aos seis anos. E desde o início me encantei. Minha mãe, que foi quem me levou para o ballet, já tinha feito aulas por muito tempo, durante a adolescência. Mas, depois, descontinuou, começou a trabalhar e se casou.

 

Aos 10 anos, no ano que faria 11, fui para uma academia conceituada que se chamava Academia de Ballet Leda Iuqui, que havia sido a primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio. Fiz toda a minha formação por lá.

 

A escola ficava em Copacabana. E era diferente da Escola de Dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde a formação já é mais orientada para a profissão e as alunas têm mais contato com o corpo de ballet profissional. Eu não. Como frequentava uma academia particular, morria de vontade de chegar próximo dos bailarinos profissionais, mas isso era bem difícil.

 

Abrindo um parêntese, hoje, tenho a maior paciência com as crianças que estão aprendendo a dançar ballet clássico. Dou bastante essa oportunidade aos mais jovens porque sei como é querer estar perto de um bailarino profissional. Acho importante!

 

Enfim, voltando à infância, eu era menina de brincar na rua, de patins, bicicleta, pular elástico... Tive uma infância livre. Éramos muitas crianças, fazíamos festas nas “garagens” das casas de nossos pais. Foi assim até o final do meu primeiro ano na academia em Copacabana. A partir daí, os horários de treino começaram a ser intensificar. Havia aula praticamente todos os dias, dividindo meu tempo apenas com a escola.

 

Minha mãe sempre incentivava muito, e teve um papel importante na minha formação! A carreira nem era reconhecida – foi alcançar reconhecimento formalmente, acho, no final dos anos 70, quando eu já era bailarina –, mas meus pais jamais deixaram de estar do meu lado e de apoiar minha escolha. Desde o início, eles me acompanhavam, levavam aos ensaios. Deixavam de viajar para estar próximos. Eles me assistem até hoje, sempre que me apresento no Rio de Janeiro.

 

Como eu sempre soube que seguir a profissão de bailarina é bastante difícil, a vida toda conciliei os estudos com o ballet. Dedicava-me bastante na escola porque fora dela sobrava pouco tempo para estudar. Fazia aulas de inglês, francês...

 

Na faculdade, entrei em Letras. Tinha um tio que morava na França. Ele era diplomata. E, a pretexto de aperfeiçoar meu francês, fui para lá para morar com a família desse meu tio e fazer um curso da língua.

 

Eu já estava por lá há dois meses e meio quando participei de uma audição (teste) de ballet em Paris, achando que a companhia era de lá. E, passei! Naquele dia, posso afirmar: minha vida mudou! Ali, delineou-se meu futuro. Cheguei à casa do meu tio toda feliz, dizendo que havia sido contratada para uma companhia de ballet, sem saber que a sede era no Sul da França. E foi uma confusão (risos). Meu tio disse que eu não poderia fazer aquilo, que não poderia sair de Paris. Foi uma loucura! Enfim, mudei-me para Marseille, no Sul da França.

 

Era minha primeira viagem ao exterior. Era diferente naquele tempo. Embora eu tivesse 18 anos, éramos (os jovens da minha época) mais inocentes. Não havia DD, nem DDI. A comunicação era feita via telefonista. Diferente de hoje, que a internet aproxima as pessoas e lugares.

 

De repente, fiquei absolutamente sozinha e isolada porque até greve dos correios peguei no país. Mas, na primeira semana na companhia de ballet, tive a certeza de que era essa a vida que eu queria para mim. E, foi assim, há quase 36 anos.

 

Essa coisa da garra, da perseverança, é uma coisa de pai e mãe. Meu médico, ortopedista, diz que seu ‘problema’ é o DNA. Ele fala: “Você está dançando até hoje tão bem por conta do seu DNA”.

 

Somos, todos nós, uma mistura. Uma soma dos nossos pais.

 

 

 

Para conferir a 2ª parte da entrevista com a bailarina Ana Botafogo, clique aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação