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Seção Entrevista
24/05/2012 - 14:38:02
Bate-papo com Flávia Vallejo, consultora em comportamento animal e autora do livro O céu dos cachorros
Por Renan de Simone e Talita Marques
Foto: Sincodiv-SP / A. Freire Flávia Vallejo, consultora em comportamento animal e autora do livro O céu dos cachorros.

 

Veterinária pela Universidade de Santos, Flávia Vallejo atua hoje como consultora comportamental de animais e se empenha num trabalho que visa à humanização da medicina veterinária. Recentemente, lançou o livro O céu dos cachorros (editora Realejo Livros), no qual trabalha de maneira lúdica a questão da morte dos animais de estimação e como lidar com o fato, especialmente junto às crianças.

 

Antes de entrar na carreira que a permitiria exercer toda a paixão por animais que desde criança demonstrava, Flávia cursou três anos de Fonoaudiologia e já trabalhou com artes plásticas, mas só se encontrou quando pôde praticar seu talento aliado ao amor pelos pets.

 

Apaixonada pela interação social homem-animal desde o início de seu curso superior em medicina veterinária, Flávia frequentava congressos, visitava ONGs e participava de cursos a respeito do assunto já nessa época, o que definiu sua carreira.

 

Foi assim que percebeu que a questão do bem-estar dos animais está ligada ao relacionamento com os donos e não apenas a questões da ordem biológica dos bichos. Num trabalho de “psicóloga de animais e donos”, como define, Flávia contou ao Sincodiv-SP Online como atua e como surgiu a ideia do livro O céu dos cachorros, que já é sucesso entre crianças e adultos. Acompanhe.

 

 

Sincodiv-SP Online: Como surgiu a ideia de trabalhar com comportamento animal? A clínica veterinária não era suficiente?

 

Flávia Vallejo: Encontrei minha verdadeira vocação na veterinária, depois de ter feito três anos de Fonoaudiologia e ter trabalhado por anos com artes plásticas. Entretanto, a clínica não me satisfazia por completo. Iniciei com atendimentos em domicílio, mas percebi que grande parte dos problemas, que pareciam ser apenas biológicos, dos animais provinha de comportamentos e da relação das pessoas da casa com os pets.

 

Desde o início de minha graduação nesta área já tinha me interessado pelo assunto, participando de congressos, visitando ONGs, centros de zoonoses, buscando respostas para a relação homem-animal e pensando em como proporcionar o bem-estar para o bicho de estimação.

 

Quando passei a clinicar, entrei em contato não apenas como o universo de cada casa e família, mas também notei algumas tendências socioculturais, especialmente aqui na minha cidade, Santos (SP).

 

Percebi uma inclinação absurda das pessoas ao abandono de, especialmente, cães sem raça ou mesmo pessoas que levavam animais aos pets-shop e nunca vinham buscá-los, eram muitos casos. Tempos depois foi instaurada uma onda de abandono de cães da raça Pit Bull, sob a alegação de que eram agressivos. Tais casos são puramente culturais e dependem do relacionamento dos donos com seus bichos.

 

Assim, vi que poderia fazer um trabalho melhor atuando de uma forma mais psicológica nos casos do que tratando apenas de doenças do corpo, por assim dizer.

 

Sincodiv-SP Online: No ambiente familiar, quais são os problemas mais encontrados no trato com animais?

 

Flávia Vallejo: O que mais vemos é uma falta de consciência por parte dos donos, que veem os animais como simples objetos e não como membros da família, o que eles realmente são. Muitas pessoas têm os animais e querem se desfazer deles na primeira dificuldade. Se adoecem, se envelhecem, se não aprendem o que elas querem de forma imediata... Tudo se torna uma desculpa para se livrar da responsabilidade de cuidar do animal. As pessoas precisam pensar muito antes de ter bichinho, é uma decisão tão séria quanto ter um filho.

 

Sincodiv-SP Online: Hoje em dia você atua como veterinária também?

 

Flávia Vallejo:Não atuo. É claro que minha experiência nessa área conta muito, mas me afastei da clínica em si. Hoje sou especialista em atendimento comportamental.

 

Sincodiv-SP Online: E como é encarada essa profissão, já que não é tão comum de se encontrar? Quais as maiores dificuldades?

 

Flávia Vallejo: Hoje posso dizer que há um respeito maior pelo profissional que atua na área de comportamento e relação entre animal e dono, mas há poucos anos ela não era levada a sério. Foi difícil entrar no mercado e, apesar de enxergar uma necessidade absurda desse tipo de trabalho na maioria dos casos que eu atendia durante a clínica, não havia demanda.

 

A situação é melhor hoje e a profissão ganhou visibilidade com a atuação de pessoas como Cesar Millan, que levou o trabalho a público em livros e programas de televisão (como o show “O encantador de cães”, por exemplo).

 

As maiores dificuldades encontradas atualmente são em relação à falta de conhecimento das pessoas, elas confundem consultoria comportamental com adestramento, o que é totalmente diferente. Eu não treino o seu cão (por exemplo) para esta ou aquela tarefa sob um comando específico, mas sim analiso qual o problema entre você e seu animal, e identifico o que deve mudar na dinâmica familiar para corrigir o problema. É diferente.

 

A outra maior questão encontrada é: uma vez que o problema é identificado, e os donos aceitam minha ajuda, o desafio passa a ser mudar o comportamento das pessoas e dos bichos, o que não é simples. Os animais respondem às nossas atitudes bem mais do que às nossas palavras, imaginem vocês o quanto é complicado alterar a rotina de uma casa.

 

Nem todos estão dispostos a mudar, esse é o desafio da minha atuação. Sou uma psicóloga de animais e donos. Preciso conquistar as pessoas, identificar o comportamento incômodo do animal e analisar a dinâmica familiar para ver o que pode ser alterado. Não existe um padrão ideal e cada casa se adapta de uma forma, é preciso respeitar a maneira de ser dos lares.

 

Para ler a segunda parte da entrevista com Flávia Valllejo e conhecer o contexto que levou à criação do livro O céu dos cachorros, clique aqui.

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação