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Seção Entrevista
24/05/2012 - 11:26:40
II PARTE: Bate-papo com Flávia Vallejo, consultora em comportamento animal e autora do livro O céu dos cachorros
Por Renan De Simone e Talita Marques
Foto: Sincodiv-SP / A. Freire "Vi que poderia fazer um trabalho melhor atuando de forma mais psicológica nos casos do que tratando apenas doenças do corpo", afirma Flávia sobre o início de seu atendimento comportamental.

 

Sincodiv-SP Online: Quanto ao livro O céu dos cachorros, sobre o que é e como surgiu a ideia?

 

Flávia Vallejo: O livro traz a história de um menino que acabou de perder o seu cão e fala sobre o que acontece quando os nossos bichinhos morrem. Apesar do tema parecer pesado, a obra tem uma veia cômica, mas que não satiriza a dor. Ela descreve o céu como um lugar em que todos os animais se unem e vivem em harmonia numa grande festa, sob um olhar infantil, portanto, brincalhão.

 

A ideia surgiu por experiências bem pessoais envolvendo meus filhos (um casal, ela com oito e ele com dez anos) e a perda de animais.

 

Sincodiv-SP Online: Como foi isso?

 

Flávia Vallejo: Hácerca de dois anos e meio, nós perdemos nossa cadela Luna. Ela estava doente, precisou de uma cirurgia, mas o quadro não melhorou e ela acabou falecendo. Na época, meus filhos tinham seis e oito anos de idade. Quando retornaram da escola e souberam que a Luna tinha morrido, vieram me questionar onde ela estava. Como qualquer mãe confrontada com tal assunto, que eu achava precoce demais, disse que ela tinha virado uma estrela (risos).

 

Para minha surpresa, eles me interromperam e disseram, “queremos saber onde está o corpo dela, não o espírito”. Fiquei atônita e tive de me explicar, criança não é boba e já na primeira experiência de morte pela qual passavam, exigiam respostas claras. A maioria das pessoas evita o assunto ‘morte’ com crianças, mas acredito que isso é errado, elas devem ter contato com essa realidade, mesmo que de maneira suave. Se a primeira experiência de perda puder ser com um animal de estimação, provavelmente a criança entenderá a questão melhor no futuro.

 

Com o passar do tempo, a tristeza permaneceu e me peguei pensando numa maneira de aliviar essa dor que a morte traz. Como desde pequena organizo melhor meus pensamentos por meio da escrita, desenvolvi um texto falando de como a Luna ainda estava presente em nossa vida.

 

Trouxe à tona as brincadeiras da cachorra, as coisas que ela roeu, os locais preferidos dela na casa, etc. O texto tinha um ar divertido e percebi que as lembranças ajudaram as crianças a passarem pela situação em vez de entristecê-las. Na época meu marido até brincou dizendo “isso dá um livro”, mas não levei a sério.

 

Pouco tempo depois, minha sogra tinha uma cadela que não estava muito boa e que teve de ser sacrificada. As crianças eram muito apegadas à cachorra, mas percebi que, apesar de sentirem falta dela, lidaram bem com a situação. Ou seja, o texto havia ajudado a elaborarem o luto mesmo que em uma situação diferente.

 

Foi aí, e por insistência de várias pessoas conhecidas, que dei uma forma diferente ao texto e iniciei uma busca por editora.

 

Sincodiv-SP Online: Quanto tempo demorou desde a ideia até a finalização e o lançamento do livro (em agosto de 2011)?

 

Flávia Vallejo: Entre a ideia de formatá-lo num livro e o seu lançamento decorreu um tempo de praticamente um ano e meio.

 

Sincodiv-SP Online: Como você trabalhou daquele rascunho que tinha em mãos até o projeto final?

 

Flávia Vallejo:Trabalhei pensando nos questionamentos das crianças, as perguntas são o motor da obra. “O que ela [Luna] deve estar fazendo? O que será que está acontecendo?”. Todas essas questões me impulsionaram. Até por isso, pelo fato de ter sido pensado sob este olhar infantil, é que acredito que ele tenha ficado leve e cômico.

 

Sincodiv-SP Online: Você já teve retorno das crianças ou mesmo dos pais a respeito do livro? Como foi?

 

Flávia Vallejo: Já sim! Foi ótimo. Ele tem uma grande aceitação, as pessoas se identificam com a história. Quando vou a uma escola ou num evento de divulgação da obra, as crianças debatem comigo, falam o que acham que está acontecendo e tudo o mais. Os pais contam como lidaram com situações semelhantes e quanto o livro facilitou a aceitação da criança.

 

Na verdade, o livro não é um substituto de uma conversa. Ela precisa acontecer, é dever dos pais explicar à criança o que acontece com o seu bichinho, mas a obra funciona como um facilitador, criando abertura para o assunto.

 

Quanto à repercussão de maneira geral, está sendo muito boa. Além da divulgação nas escolas e nos canais de mídia, um diretor de teatro me procurou para conversarmos sobre a possibilidade de transformar o livro em peça, o que eu acho incrível!

 

Sincodiv-SP Online: O céu dos cachorros é ilustrado pela Simone Matias. Vocês já se conheciam ou se encontraram por conta do projeto?

 

Flávia Vallejo: Nos encontramos pelo projeto. Quando a ideia se consolidou, comecei a buscar opções de ilustradores para a obra e, numa pesquisa, encontrei o site da Simone. Simplesmente me apaixonei pelo trabalho dela e, curiosamente, quando fui saber mais, vi que ela era de Santos, a minha cidade.

 

Marcamos um encontro e pedi que ela fizesse um piloto da primeira cena do livro, onde o animal acaba de morrer. Como sou uma pessoa direta, imaginava a cena de uma forma objetiva, quase dramática, mas ela me surpreendeu. A Simone passou a mensagem completa sem causar nenhum impacto visual negativo, ficou leve, perfeito.

 

Sincodiv-SP Online: Você acompanhou o processo de criação das ilustrações? Como é trabalhar num livro a quatro mãos onde uma coisa depende da outra?

 

Flávia Vallejo: Achei a sensibilidade da Simone muito aguçada e, apesar de acompanhar de perto cada etapa, dei a ela liberdade total para criar em cima do texto.

 

Achei que seria difícil ter alguém “mexendo” na obra, mas ela tem uma capacidade interpretativa tamanha que só surpreendeu. As imagens ficaram delicadas, com atrativo visual. Foi um facilitador para o processo!

 

Sincodiv-SP Online: Hoje, o que o livro significa para você?

 

Flávia Vallejo: Ele é o resultado de muito amor, pois é isso que embasa o relacionamento das famílias com seus pets. Ele significa uma homenagem aos animais que o inspiraram.

 

Sincodiv-SP Online: Já pensa num segundo livro?

 

Flávia Vallejo: Sim, está em desenvolvimento até!

 

Sincodiv-SP Online: Sobre o quê?

 

Flávia Vallejo: Ele fala da questão animal sob o viés ambiental, preservação x sofrimento. A ideia da obra é fazer refletir, questionar. O que você está fazendo para ajudar nesse tema? A proposta é despertar, já na criança, uma consciência socioambiental.

 

O livro será leve e estou trabalhando muito nisso. Ele é feito em rima, o que dinamiza a leitura e é pensado com uma personalidade para cada animal, para dar tom cômico.

 

Sincodiv-SP Online: Depois do sucesso da primeira obra e do preparo da segunda, você pensa em seguir a carreira de escritora? Qual seria seu público nesse caso?

 

Flávia Vallejo: Com certeza não vou abandonar minha profissão, mas pretendo incluir esta ao meu currículo (risos), até porque escrever “sobre animais para pessoas” é uma ponte para o meu trabalho. As histórias ajudam a sensibilizar e alcançar aquilo que pretendo, mostrar que os animais são parte da família e que o vínculo com eles deve ser do início ao final da vida.

 

Meu público é o infantil. É difícil mudar o adulto, mas a criança está aberta. É ela que temos de educar e trabalhar junto para conscientizar.

 

Sincodiv-SP Online: Qual é a dica, então, que você dá a pessoas que querem ter seu animal de estimação?

 

Flávia Vallejo: Ter um bichinho não é para qualquer um. É preciso amor, carinho, dedicação, responsabilidade e a certeza de manter o pet até o final de sua vida. Ter um animal de estimação é uma experiência maravilhosa, cheia de diversão. Problemas podem ocorrer, mas todos precisam saber que basta procurar ajuda nesse caso. Sempre há uma solução boa para todos!

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação