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Seção Entrevista
28/06/2012 - 10:47:52
PARTE II - Bate-papo com Mario Sergio Cortella, filósofo e doutor em Educação
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes

 

Sincodiv-SP Online: Qual é a importância do trabalho na sua visão?

 

Mario Sergio Cortella: Nós somos seres que não só vivemos, mas que construímos alguma coisa. Não apenas fruímos da natureza, mas elaboramos o nosso mundo, ou seja, criamos a cultura. O nome que se dá para a ferramenta humana de elaboração do mundo é trabalho.

 

Se ele tem essa importância, podemos dizer que é uma das formas pelas quais nos definimos como seres, uma das maneiras pelas quais somos cada vez mais nítidos e legítimos em nossa identidade, capacidade e convivência.

 

Entretanto, quando esse trabalho escraviza a si mesmo ou a outra pessoa, ele degrada sua função original de criar o seu mundo e se torna indigno da nossa condição.

 

Nós vivemos numa sociedade em que há uma laborlatria, ou seja, a idolatria do emprego – e não do trabalho em si. Esta adoração faz com que o emprego, e não o trabalho, se torne a referência de vida das pessoas. Tanto que, quando vemos pessoas adoentadas, elas supõem uma melhora quando se veem aptas a voltarem aos seus empregos e não de voltarem a dançar, voltarem a conviver. Por isso essa laborlatria é perigosa.

 

Evidentemente que ninguém pode viver sem trabalhar, o que é verdade, mas viver para o trabalho é diferente de viver do trabalho. É preciso que se tenha um relacionamento com o coletivo, onde possamos viver do nosso trabalho, isto é, no qual o trabalho seja nossa ferramenta, porque se vivemos para o trabalho, somos submetidos a ele, e isso sim leva a um estresse constante combinado com o sentimento de pressa do qual falamos.

 

Sincodiv-SP Online: O mundo corporativo parece selvagem. Pessoas focadas no lucro, na competitividade, profissionais ocupados apenas com o crescimento da carreira, etc. O senhor acredita que esse modelo deve perdurar?

 

Mario Sergio Cortella: Nós estamos perto de um esgotamento desse modelo, mas não perto de seu fim. Isso quer dizer que já não o suportamos mais mentalmente, ele nos faz sofrer. Por outro lado, ele ainda demonstra fôlego na medida em que os novos empreendedores iniciam seus negócios com uma disposição muito grande à luta.

 

Em outros tempos, o capitalismo foi chamado de selvagem, mas hoje está ainda mais. Isso porque, apesar de existirem novos direitos que supõem proteção e uma vida melhor, a selvageria aumentou na medida em que há uma forma de esvaimento da nossa condição de vida no dia a dia, e mesmo das condições da natureza dentro disso.

 

Poderíamos supor que a consciência de toda a problemática nos levaria a uma reorientação do modelo, mas não é o que ocorre, haja vista que a Rio+20, que trata de questões básicas à sobrevivência da vida, não chama a atenção de quase ninguém. Se nem esse tema importante chama a atenção do conjunto das populações e das organizações, isso é um sinal claro do risco que está em nosso horizonte.

 

Sincodiv-SP Online: A diferença entre gerações sempre foi um tema de debate na sociedade. Entretanto, as empresas cresceram e parecem abarcar mais universos atualmente, gerando conflito. Como você acredita que esses conflitos podem ser minimizados? O que é preciso para um bom convívio entre gerações?

 

Mario Sergio Cortella: Eu acredito que os conflitos podem ser minimizados, mas não devem ser anulados. O que devemos anular são os confrontos.

 

Entenda que o conflito entre gerações, nesse caso, é criativo e produz novas ideias, soluções e formas diferenciadas de visão. Isso porque o embate é criativo. O confronto é o perigo porque, ao contrário do conflito, ele supõe uma anulação da pessoa confrontada, o que se deseja é "apagar" a outra pessoa. O conflito embate ideias para encontrar um terceiro caminho.

 

Para criar uma harmonia na relação, é necessário um gestor de muita capacidade e que saiba aproveitar a experiência e planejamento dos mais antigos com a empolgação e domínio de ferramentas dos mais jovens. O gestor e líder nesse caso funciona como o maestro de uma orquestra, ele não toca todos os instrumentos, mas conduz o todo para que cada um faça sua parte em harmonia com o resto.

 

Importante não confundir harmonia com monotonia. A monotonia não produz ideias, é um estado de letargia, ao passo que a harmonia é a capacidade de seguir um mesmo tom e ritmo, por assim dizer, mas fazendo algo bem próprio. Utilizando a comparação com uma orquestra, de nada vale se todos os instrumentos tiverem o mesmo som e nota ao mesmo tempo, é a diversidade na unidade, inserida no momento certo, que permite a beleza do todo. O gestor deve "concertar" as convivências, ou seja, fazer a harmonia dos vários instrumentos diferentes dentro de uma mesma música.

 

Sincodiv-SP Online: Muito se fala hoje de transformações enfrentadas pelo Homem, mas o mundo parece nunca ter "parado de mudar", por assim dizer. Qual seria a diferença, então, das transformações que víamos antes daquelas que viemos vendo e sofrendo nas últimas décadas (ou século, se preferir)?

 

Mario Sergio Cortella: Isso depende muito do lugar do nosso planeta em que se vive. Algumas regiões mantêm uma certa perenidade em relação a comportamentos e conduta. Mas se nós pegarmos o modo ocidental, que é o nosso, e o das grandes metrópoles, que é o caso de São Paulo, a grande mudança foi o apressamento da vida, como falamos. Isto é, uma restrição do tempo de convivência, do tempo de ócio e uma diminuição das capacidades de relações afetivas. Acima de tudo, podemos destacar também uma mediação da vida pela tecnologia, ou seja, uma ferramenta se tornou, em muitos casos, senhor ou senhora da vida das pessoas.

 

Assim, em vez de utilizar a tecnologia como uma ferramenta de acesso, ela passou a ser um domínio sobre si mesma e sobre outro. Esta é a grande diferença do nosso tempo, um apressamento da vida e uma submissão às ferramentas.

 

Poderíamos dizer que a vida está muito menos violenta do que já foi em outro tempo histórico, mas se tornou distante na convivência. Embora sejamos mais gente em menos espaço, estamos cada vez mais distantes uns dos outros e isso é uma novidade em boa parte da história.

 

Esse modelo é um tanto egoísta e coloca o indivíduo como centro de tudo e não o coletivo ou o relacional e, logo, não é de se espantar que tenha-se hoje essa consumolatria, ou seja, a idolatria de um consumo, da posse material, mesmo que desnecessária. Isso passou a definir o sujeito em certa medida.

 

Sincodiv-SP Online: Não é de hoje que o Homem busca um sentido para a vida, seja pela arte, ciência, filosofia ou religião. Em sua visão, qual seria o significado da nossa existência, ou, ao menos, qual deveria ser nossa busca durante a vida?

 

Mario Sergio Cortella: Nós somos construtores de sentido, não temos um sentido já fechado dentro de nós. Toda a história humana é uma tentativa de fazer com que a vida de todos e de cada um não seja uma mera banalidade. Essa deve ser nossa busca. A espiritualidade, que não é religião - mas um sentimento de que existem forças agindo em nossas vidas que são maiores que nós -, ajuda nessa busca, mas nós criamos o nosso próprio sentido ao longo de nossas vidas.

 

Sincodiv-SP Online: Se não existem receitas para a vida, logo, as respostas não podem ser padronizadas, mas quais o senhor acredita que seriam, então, as perguntas certas que as pessoas devem se fazer para darem sentido à própria existência?

 

Mario Sergio Cortella: Só existe uma pergunta que deve ser feita que é "como podemos viver de modo que a vida seja curta, mas não seja pequena?". Ou seja, como faço para ter uma vida que não seja banal, diminuta, superficial, insignificante; como faço para que a minha vida tenha importância para o conjunto da vida?

 

Essa, sim, é a única pergunta que tem de ser feita sempre. Todas as vezes que eu não me faço essa pergunta, eu posso viver de maneira automática, robótica, posso ser tolo. Sendo mortal, minha vida não precisa ser pequena. É a imortalidade pela obra.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação