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Seção Entrevista
28/06/2012 - 09:52:23
Bate-papo com Mario Sergio Cortella, filósofo e doutor em Educação
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes
"Hoje, o grande desafio é fazer do lucro algo que não seja manchado pela patifaria, que tenha transparência", afirma o filósofo Mario Sergio Cortella ao tratar do universo corporativo.

 

Autor de livros como Não Nascemos Prontos! e Não Espere Pelo Epitáfio: Provocações Filosóficas (entre muitos outros), Mario Sergio Cortella é uma personalidade que desperta exatamente esta sensação quando se escuta suas reflexões: a de ser provocado filosoficamente, um convite ao pensar.

 

Filósofo, doutor em Educação pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e professor na mesma entidade há mais de 35 anos, Cortella foi também Secretário Municipal de Educação em São Paulo no início da década de 90.

 

Nascido em Londrina, no norte do Paraná, em 1954, o professor está em São Paulo há 45 anos, onde atua também como palestrante a líderes corporativos.

 

Com uma visão histórica, críticas precisas e o bom humor costumeiro, Cortella é o personagem do Bate-papo do Sincodiv-SP Online deste mês e conta como podemos atuar para que a vida, apesar de curta, não seja pequena. Acompanhe.

 

Sincodiv-SP Online: Professor, você é filósofo, doutor em Educação e atua no ensino de Ética e Teologia. Conte um pouco sobre como descobriu tal vocação, como foram os primeiros passos de sua vida em busca desse "amor ao conhecimento"?

 

Mario Sergio Cortella: Sempre gostei bastante de ler e de estudar o que fosse, mas minha história contribuiu para o meu desenvolvimento no sentido acadêmico. Nasci em Londrina (PR), em 1954, e mudei com minha família para São Paulo quando tinha cerca de 13 anos. Até os meus 10 anos de idade, não havia televisão em minha casa, então minhas formas de entretenimento, além das típicas brincadeiras de criança, eram o rádio e a leitura.

 

Em 1960, com cerca de seis anos, tive uma intercorrência médica que me ajudou “imensamente”, fiquei com hepatite. Naquela época, o tratamento demorava cerca de quatro meses tempo no qual, sem TV, dediquei-me a participar de programas de rádio, respondendo a testes e provas que eram colocados aos participantes, e à leitura.

 

Num primeiro momento, a família trouxe tudo o que havia de história em quadrinhos para eu ler; num segundo momento me presentearam com Monteiro Lobato e, depois, já sem tantas opções, me trouxeram literatura adulta mesmo. Foi assim que conheci de Doistoévski a Machado de Assis.

 

Conto isso porque foi assim que tive despertado o interesse pelo tratado teórico intelectual e daí para a filosofia foi um passo.

 

Sincodiv-SP Online: Então desde criança pode-se dizer que soube o que queria dos estudos?

 

Mario Sergio Cortella:Sim, mas foi quando tinha 17 anos de idade que eu decidi que gostaria de estudar Filosofia, área em que dei os primeiros passos de minha carreira. Com 22 anos, já formado, fui convidado a dar aulas na PUC-SP, na qual estou há mais de 35 anos. Dentro dessa entidade foi que constituí o complemento de minha formação em Filosofia e Ciências das Religiões.

 

Sincodiv-SP Online: O senhor não é teólogo, então?

 

Mario Sergio Cortella:Não, sou um cientista das religiões. A teologia pressupõe o exercício da fé, e minha atividade é o estudo das religiões em geral, especialmente da sua história e, dentro delas, o valor ético que carregam. Não sou teólogo em stricto sensu (risos).

 

Sincodiv-SP Online: Há uma história curiosa de que você foi monge durante três anos de sua vida. De que ordem participava, quando isso aconteceu e que lições tirou deste período?

 

Mario Sergio Cortella: É verdade! Quando tinha meus 13/14 anos, eu desejava ter uma experiência de religiosidade mais intensa, até porque sou de uma família de tradição católica, mas foi só quando eu tinha de 17 para 18 anos – assim que entrei na universidade – que fiz a escolha de ter a experiência de uma vida de clausura. Assim, ingressei num convento da ordem Carmelita dos Pés Descalços, que fica na cidade de São Paulo, no quilômetro 18,5 da rodovia Anhanguera.

 

Dentro da ordem Carmelita, na clausura do convento, fiquei por exatos três anos. Quando terminei o curso de filosofia (que tinha duração prevista de quatro anos, mas encerrei em três), percebi que não queria seguir carreira religiosa e, como minha experiência no campo da filosofia ali parecia completa, decidi deixar o convento e seguir carreira no campo do ensino, da educação, do debate e da ética.

 

O período em que lá estive, entretanto, foi de grande influência em minha vida. A experiência dentro de um monastério católico é de muita disciplina e regra, característica que carrego até hoje comigo. Este clima é muito positivo ao estudo e ao trabalho. Além disso, na época havia somente três brasileiros dentro do monastério, sendo que convivi com italianos, lituanos, espanhóis, etc. Essa vivência me foi importante não apenas pela questão linguística, mas em especial pela diferença de culturas e realidades, que muito me ensinou.

 

Sincodiv-SP Online: Foi quando você saiu do monastério que deu início a uma vida civil, por assim dizer?

 

Mario Sergio Cortella: Sim. Dois anos depois de deixar a ordem, eu me casei pela primeira vez. A união me presenteou com meus dois filhos, hoje adultos. Mais tarde casei novamente, com a jornalista Janete Leão Ferraz Cortella, com quem estou há 27 anos e, apesar de não termos tido nenhum filho juntos, Pedro, que é filho de Janete e que tinha um ano e meio quando eu e ela nos casamos, é também meu filho. Inclusive nós dois até brincamos com isso. Quando alguém pergunta a ele ou a mim se o Pedro é meu "filho de sangue", nós dizemos: fazemos transfusão há 27 anos (risos).

 

Sincodiv-SP Online: Mudando um pouco de assunto, você participa de palestras voltadas a diversos públicos, incluindo executivos e empreendedores. Como o senhor vê o mundo corporativo atualmente? Qual o maior problema desse universo?

 

Mario Sergio Cortella:O maior risco do mundo corporativo hoje é que ele retome o sentido original da palavra latina lucrum, da qual deriva a nossa atual "lucro". Isso porque lucrum, em latim, significa engano, engodo, lograr alguém. Há 500 anos, esse termo mudou de sentido e passou a significar a remuneração justa ou correta de um produto vendido ou um serviço oferecido, mas até então significava lograr alguém, até mesmo abdicando da honestidade no processo.

 

Desta forma, o grande risco do mundo corporativo hoje, o grande desafio é fazer do lucro algo que seja higiênico, que não seja manchado pela patifaria, que tenha transparência.

 

Há, sim, a possibilidade de se ter uma lucratividade que seja decente e ela não pode ser ameaçada. Porém, o mercado internacional – e o Brasil dentro dele – admitiu, nos últimos dez anos, e agora começam a falar essa lógica, a ideia do "fazemos qualquer negócio".

 

Essa atuação degrada a ideia de fazer negócio e é responsável, inclusive, pela crise que observamos nos últimos anos, desde 2008. Isso porque, em última instância, essa não é uma crise de crédito, mas sim uma crise de credibilidade. Caso fosse uma crise de crédito, o despejo de dinheiro no mercado – como foi feito – poderia resolvê-la, o que não aconteceu.

 

Ao colocar a lógica do "cada um por si e Deus contra todos", o mundo corporativo acabou corroendo a sustentação de valor que teria de modificar o presente. Esse é o problema.

 

Sincodiv-SP Online: É preciso pensar uma ética para o negócio?

 

Mario Sergio Cortella:Exatamente. Ética dos negócios é um valor corporativo e não apenas uma coisa de fachada. Ética não é cosmética!

 

Hoje, com as ferramentas digitais, uma organização que utiliza a ética como cosmético, é desmascarada com mais facilidade, porque isso circula com uma velocidade inacreditável do que era possível até duas ou três décadas.

 

Sincodiv-SP Online: Hoje parece haver uma ditadura da tecnologia. Tudo tem de ser veloz, ágil, instantâneo. As ferramentas parecem ajudar as pessoas a ganharem tempo, mas a percepção da maioria é de termos cada vez menos e não mais tempo. Como o senhor enxerga esse fenômeno?

 

Mario Sergio Cortella: Isso é verdade e ocorre porque caímos numa armadilha muito perigosa, pois hoje confundimos velocidade com pressa.

 

Fazer apressadamente é diferente de fazer velozmente. Hoje, a ideia de velocidade não é de agilidade de fato, mas sim de pressa, por isso se tem cada vez mais uma restrição do tempo. Ou seja, temos uma ocupação contínua de qualquer tempo livre, o que leva a nos sentirmos sufocados.

 

Cronologicamente, há um sufoco na vida das pessoas, pois, dada a pressa com que tudo tem de ser feito, não sobra tempo.

 

Velocidade gera sobra de tempo, mas pressa restringe o tempo que se tem para alguma coisa, inclusive porque, geralmente, como a pressa leva ao equívoco, é preciso refazer e refazer as coisas com muita frequência para que tudo possa funcionar minimamente.

 

O uso da tecnologia em si não é uma questão ela mesma, mas a forma do uso hoje leva a uma "informatolatria" – uma adoração das plataformas digitais – que é extremamente perigosa porque ela não dá tempo para a reflexão, para o adensamento do pensamento. Não há a oportunidade de maturar algumas ideias e concepções e leva, portanto, a uma vida marcada pelo desespero da pressa em vez da paciência.

 

Importante colocar que paciência não é lerdeza. Ser paciente não é ser lerdo, mas, sim, entender que existe um tempo de maturação para conhecimentos, relacionamentos, aprendizados etc.

 

Tudo apressado leva a lugar nenhum... e em pouco tempo.

 

 

Para ler a segunda parte da entrevista com Mario Sergio Cortella, clique aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação