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Seção Entrevista
30/08/2012 - 11:05:08
PARTE III - Bate-papo com Amyr Klink, navegador e empreendedor (não assumido)
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes

 

Sincodiv-SP Online: Você parece estar agarrado a valores tradicionais que pautam sua vida, mas não abandona um espírito ousado. Como inovar sem abandonar seus princípios?

Amyr Klink: O grande mérito do meu trabalho hoje é justamente buscar inovações, mas de maneiras muito simples, o máximo possível. Isso é alcançado porque pensamos a partir de valores e conhecimentos tradicionais.

Sincodiv-SP Online: Você já realizou muitos feitos, incluindo diversas expedições para a Antártica (cerca de 15). Hoje, qual é o desafio que ainda quer superar, e existem novos projetos vindo por aí?

Amyr Klink: Estou trabalhando atualmente em alguns projetos na área de estruturas habitáveis flutuantes para escolas, hospitais, postos de saúde, hotéis, áreas de lazer... É um segmento complicado, uma vez que a formação de engenheiros não é muito voltada para esses tipos de estruturas, e mesmo as questões de licenciamento para construções em áreas preservadas e próximas a mangues são difíceis.

Estamos estudando novos materiais para tais estruturas. Apesar de em muitos lugares não termos essa tradição, na Amazônia é muito comum essa cultura. Normalmente se usa a madeira assacú para estruturas flutuantes, mas estamos achando alternativas com o poliestireno expandido, concreto e um pouco de aço, eventualmente. Isso porque aqui no Brasil as plataformas flutuantes têm de suportar mais peso do que em outros locais, porque construímos nossas casas com tijolos, cimento e etc., ao contrário de uma alvenaria leve, como nos Estados Unidos, por exemplo.

Quando pensamos num projeto, temos de levar tudo isso em conta (durabilidade, capacidade, normas) e ainda falta legislação nessa área. Porém, acredito que quando surgir uma legislação sobre estruturas flutuantes, ela estará muito próxima do que o que fazemos atualmente. Alguns desses projetos estão sendo desenvolvidos no estado do Rio de Janeiro, mas meu maior desafio é conseguir construir essas estruturas sem a necessidade de estaleiros, uma vez que não é todo lugar que permite o acesso de gruas, guindastes e etc.

Fora isso, planejo continuar com minhas viagens à Antártica pelo menos uma vez ao ano; e, junto com a Marina (Bandeira, esposa de Klink) investir na educação das nossas três filhas. Esse é o maior e mais longo desafio (risos).

Sincodiv-SP Online: O Sindicato fala aos distribuidores de veículos de todo o estado de São Paulo. Se tivesse de mandar uma mensagem de motivação e um conselho a tais empreendedores, quais seriam?

Amyr Klink: Em primeiro lugar gostaria de me desculpar por ter falado um pouco "mal" do conceito do carro (risos), mas acredito que sejam críticas válidas, pois para quem vive desse negócio, é importante estar com o olhar bem aberto para o futuro, pois ocorrerão mudanças pesadas.

É um processo lento e leva tempo, mas os concessionários estarão diretamente envolvidos nele, portanto devem estar ligados.

Quem está no setor automotivo deve trabalhar porque gosta e porque entende do assunto. E, os distribuidores devem ter noção do seu importante papel, pois a indústria é cega. São os concessionários que têm o contato direto com o consumidor e chances de notar demandas e oportunidades de negócios. A indústria depende do olhar desses empreendedores.

Sincodiv-SP Online: Por fim, muito se fala da situação brasileira quanto aos aeroportos e etc., mas e quanto à navegação? Qual a sua visão sobre os portos de nosso país?

Amyr Klink: Tudo o que conhecemos de problemas rodoviários e dos aeroportos, da falta de estratégia e investimento em infraestrutura, acontece ao quadrado no setor náutico. Nós podemos chamar todos os governos e administrações de incompetentes por essa situação, mas olhando como um investidor privado. É um cenário interessante.

O Brasil está cheio de problemas nesse sentido e há muito a ser feito, mas nossa preocupação não é tão alarmante quanto à de uma Espanha, por exemplo.

Bem ou mal ainda estamos melhores que eles, e isso porque, naquele país, tudo o que podia ser feito para a melhora dos portos já foi feito e a situação é drástica. Por aqui, temos um cenário ruim, mas ainda com capacidade de expansão, inovação e melhoria, desde que haja vontade e investimentos.

Há um trabalho enorme a ser feito em infraestrutura, conscientização e mudanças culturais. O licenciamento para obras deste tipo é complicado e, apesar da legislação há anos prever projetos avançados com espaço para ampliação, governadores e políticos corruptos fizeram vista grossa e muito do que se construiu em rios e etc. foi feito sem esse planejamento. Vai dar mais trabalho para consertar lá na frente do que teria dado para fazer certo desde o início, mas existe espaço para melhora.

O Brasil tem uma questão geográfica difícil de não ter áreas muito profundas para embarcações grandes, mas nem todos os locais com vocação natural para porto foram exploradas e as regiões rasas podem ser trabalhadas. Ou seja, existe solução para tudo, desde que haja boa vontade.

A iniciativa privada tem cumprido parte desse papel, mas falta uma postura mais ativa do governo. Assim como na questão da educação – que deveria ser tratada como um assunto bélico, com melhor remuneração de professores e valorização dos alunos –, é algo que leva tempo. O pouco conhecimento técnico do Ministro escolhido para essa área assusta um pouco, mas algo já está sendo feito, uma vez que já se admitiu que a situação está precária.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação