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Seção Entrevista
30/08/2012 - 11:04:36
PARTE II - Bate-papo com Amyr Klink, navegador e empreendedor (não assumido)
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes

 

Sincodiv-SP: Qual é o grande diferencial do que você faz?

Amyr Klink: No mundo, hoje, devem existir umas 20 pessoas que fazem o que faço. E que podem ser navegantes até mais experientes (risos). O meu grande diferencial é viajar com equipamentos próprios.

Eu não me considero um cara "outdoor", que abraça uma marca para fazer aventuras e ganhar dinheiro com isso. Desde o projeto, a logística da viagem, o equipamento de comunicação e etc., tudo é desenvolvido pela minha empresa e equipe. Não é uma vontade de dominar tudo, mas é que as soluções que eu busco não existem prontas para se comprar no mercado.

Estou desenvolvendo um projeto de lanchas, por exemplo, onde as melhores que existem estão na Noruega. Porém, quando fui testá-las, não gostei do resultado, ou seja, estou trabalhando em soluções para melhorar o desempenho desses veículos e adaptá-los à minha necessidade.

Sincodiv-SP Online: Utilizar os produtos que fabrica faz diferença?

Amyr Klink: Pelo fato de utilizarmos os equipamentos fica muito mais fácil de ter ideias melhores quando sentamos para projetar. Não é uma coisa simples ou barata. Questionar mesmo o que gosto também é uma forma de pensar sempre em soluções.

Não posso esconder, nesse ponto, uma admiração que tenho pelo universo automotivo. A quantidade de tecnologia que se consegue colocar dentro de um veículo terrestre, produzi-lo em massa e a um preço relativamente baixo (por conta da produção em larga escala), é incrível. A regularidade da reposição de peças e todo o processo organizado nessa área é sensacional.

Entretanto, impressiona também a falta de criatividade e de como o automóvel, hoje, dentro de alguns padrões tecnológicos, é ultrapassado e uma máquina de desperdiçar energia (pois a maior parte da energia gasta por ele é para carregar seu próprio peso e não de uma possível carga ou passageiros).

O sistema de suspensão, por exemplo, há 50 anos funciona da mesma forma. A área automotiva teria de ser mais responsável e sustentável (em todos os seus braços, não só o ambiental).

O design está muito amarrado ao que se julga que o mercado quer, mas o "mercado" é um tanto cego. Ele não sabe o que quer até que apareça algo novo. Olhando a vertente de equipamentos eletrônicos e de informática, é preciso testar, arriscar. De repente surge um cara com ideias novas e corporativamente "irresponsável" e lança algo que vira padrão em menos de um ano. Ainda não apareceu o Jobs (Steve Jobs) do automóvel!

Acho interessante manter um espírito crítico e ver daqui 20 anos, por exemplo, alguém conversando e dizendo "lembra de quando usávamos aqueles veículos antigos que pesavam toneladas..." (risos). É um cenário altamente inspirador, um convite a mudanças.

Sincodiv-SP Online: Como fica a relação com a família em meio a tantas aventuras? O que acharia se elas seguissem o rumo do pai?

Amyr Klink: Adoro ir para locais difíceis e complicados, mas não pela complicação em si, mas pela beleza, por conhecer, etc.

Adoro ir à Antártica tanto quanto gosto de ir até a Santa Efigênia (rua paulistana com forte comércio eletrônico). Eu não procuro aventuras, gosto de viajar com conforto e confiança, de uma maneira pela qual eu possa chegar quando eu pretendo e voltar quando eu quiser.

Hoje eu posso fazer isso com minha família. Minha alegria é viajar com minha esposa e filhas para a Antártica, por exemplo, mas não quero que seja uma aventura (no sentido de perigo) para elas. Tem de ser algo prazeroso. Faço por curiosidade e cada vez com um objetivo diferente.

Sincodiv-SP Online: Você é um narrador de suas viagens, com livros publicados.

Amyr Klink: Existem muitas pessoas que passam por experiências incríveis com o intuito de filmar, escrever ou transformar em qualquer outra mídia comerciável. Eu acho válido, mas não gosto disso.

No meu caso, como falei, conheci as embarcações através da literatura. Foram duas paixões que se encontraram nos meus livros, mas sem nenhum objetivo comum por trás disso.

Já realizei algumas viagens fantásticas que nunca vou colocar em livros, ou mesmo escrevo coisas que não pretendo publicar. Por outro lado, algumas de minhas histórias viraram obras escritas por conta de situações engraçadas ou curiosas.

Eu gosto muito da língua Portuguesa e sou exigente quanto ao seu uso. Existem alguns livros que tenho escritos e que nunca vou publicar porque não estão bem escritos (risos). Aqueles que publiquei foram porque acreditei que estavam bem redigidos. Novamente, a questão da literatura e da navegação são paixões distintas que se encontraram, mas eu adoraria escrever sobre "o que eu não fiz", ficção mesmo.

Sou um pouco contra essas pessoas que pensam em realizar uma viagem ou algo qualquer não porque querem de verdade, mas para se aproveitarem disso depois em livros, palestras ou o que quer que seja. Vivemos uma era de superexposição, em que tudo é feito para ser visto e não por alguma vontade que temos dentro de nós.

De que vale uma "autobiografia" feita por um escritor fantasma (ghost writer), por exemplo? Se você é um navegante, reme antes de pensar numa palestra. Começar uma coisa pensando em outra não dá certo. É típico de quem vai "morrer na praia".

Sincodiv-SP Online: Você tem uma relação intensa com o meio ambiente e vê de perto o que as pessoas de grandes metrópoles às vezes não enxergam. Na sua visão, o que está acontecendo?

Amyr Klink: Eu muitas vezes convivo com a natureza de maneiras muito particulares, mas creio que hoje, nas grandes metrópoles, existe uma consciência ambiental e até mesmo um convívio profundo com a natureza.

Claro que o contato direto com o meio natural é reduzido em São Paulo, por exemplo, mas a população de grandes cidades é mais consciente quanto ao cuidado do ambiente, mais até do que as populações rurais eu diria. Onde algo falta por assim dizer, o cuidado é maior.

As gerações mais jovens das grandes cidades têm uma consciência imensa a esse respeito. O que eles não têm, ainda, é poder para mudar, é capacidade de ação, mas que vão adquirir normalmente conforme crescem.

Temos de ter cuidado com essa questão ambientalista. Preservar o meio ambiente e acompanhar de perto o uso que dele se faz é uma coisa, mas não se pode cair numa exaltação de tempos primitivos, por assim dizer. Gosto da natureza, mas não abro mão do conforto que a civilização traz. Além disso, se pensarmos em eficiência de moradia e mobilidade, as metrópoles alcançaram façanhas imensas em relação ao número de pessoas que comportam.

Acho que o grande problema, em São Paulo, por exemplo, é que ficamos tampando buracos da mobilidade urbana quando existem questões mais sérias a serem pensadas. O problema é que transporte dá visibilidade aos políticos, então se torna um assunto primário.

Sincodiv-SP Online: Quais mudanças são demandadas?

Amyr Klink: Falta planejamento e visão. A educação sofre de falta de investimentos, só pra citar algo importante, mas como é um setor que tem um ciclo de maturação de cerca de 15 anos. Ninguém investe porque não é imediata em termos de resultados.

Os políticos não conseguem (ou não querem) raciocinar pensando daqui 20 ou 30 anos, o que faz com que lá na frente a situação esteja crítica e a conta seja mais cara.

Assim, as soluções buscadas acabam sendo burras. Por exemplo, ao invés de pensar em um carro elétrico de grande autonomia, ouve-se falar em motores elétricos ou híbridos de 300 cavalos de potência (risos), o que não faz nenhum sentido nas grandes cidades.

 

 

Para ler a terceira e última parte da entrevista com Amyr Klink, clique aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação