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Seção Entrevista
30/08/2012 - 10:43:08
Bate-papo com Amyr Klink, navegador e empreendedor (não assumido)
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes
Foto: Kiko Ferrite

 

Quem já ouviu falar em pelo menos uma de suas 15 viagens à Antártica; sua travessia do Atlântico Sul, em 1984, sozinho, num barco a remo; ou mesmo a volta ao mundo que realizou navegando solitário durante 141 dias, diria que Amyr Klink é um aventureiro, mas não é assim que ele se define. "De fato", conta ele, "como qualquer pessoa, gosto de viajar com conforto e segurança. Não procuro o perigo, só quero descobrir e explorar o mundo".

Natural de São Paulo (SP), Klink conheceu o contato entre terra e mar muito cedo, quando, na década de 50, seu pai adquiriu propriedades em Paraty (RJ). Ali, pelo difícil acesso à cidade naqueles tempos, a natureza estava preservada de maneira única, inclusive seu porto natural – que atraía muitos navegadores.

Desde pequeno, Klink se encantava com as histórias literárias de grandes navegações, mas quando seus olhos encontraram, em Paraty, aquilo que ele já tinha sonhado através dos livros, não houve mais escapatória.

Hoje, formado em Economia e pós-graduado em Administração de Empresas, Klink capitaneia uma empresa de “soluções inteligentes”, desenvolvendo embarcações e acessórios muito específicos a cada necessidade de navegação dos clientes que o procuram. O navegador também é escritor, com diversas obras publicadas (entre elas: Cem dias entre céu e mar, Mar sem fim e Linha-D'água), e palestrante.

Numa perspectiva crítica e pessoal – em entrevista ao Sincodiv-SP Online – Amyr Klink fala de suas experiências, do mundo corporativo e até mesmo de sustentabilidade. Acompanhe:

Sincodiv-SP Online: Um dos seus primeiros feitos de destaque foi a travessia solitária pelo oceano Atlântico Sul num pequeno barco a remo (em 1984). De onde veio essa ideia e impulso, e como foi o planejamento dessa viagem?

Amyr Klink: Apesar do que alguns dizem, a viagem em si não foi um "grande feito". Acredito que qualquer idiota consiga remar pelo oceano (risos). O que gosto dessa navegação em particular, e algo de que me orgulho, é do planejamento que fiz.

O impulso para remar partindo da costa africana até chegar na brasileira veio de alguns estudos que eu estava fazendo na época sobre alguns navegadores e aventureiros que falharam ao tentar a travessia, ou que tiveram problemas demais durante. Revendo as viagens, etc., percebi diversos erros e procurei soluções. Quando dei por mim, estava com a viagem toda planejada, prevendo várias situações e possíveis problemas.

Concebi uma embarcação a remo pequena, eficiente e com autonomia para a travessia e, no final das contas, era só embarcar, e foi o que fiz!

Apesar de me orgulhar do planejamento dessa travessia, devo ressaltar que no Brasil nós vivemos uma "febre" de planejamento. Muito se fala em planejar, mas não podemos ficar "presos às nossas escrivaninhas", acho que faltam empreendedores e pessoas que executem aquilo que tanto pensam.

Sincodiv-SP Online: Você tem formação em Economia e Administração de Empresas e, além de navegador e escritor, é também palestrante e empreendedor. Como é a união dessas áreas?

Amyr Klink: Apesar de ter estudado Economia e Administração, não me considero um profissional em nenhuma dessas áreas. Entretanto, devo admitir que o conhecimento de todas elas contribuiu muito para que eu pudesse fazer o que faço hoje: desenvolver soluções inteligentes e tecnologias para embarcações e etc.

Minha intenção não é ser um construtor de embarcações em massa, mas procuro ideias e soluções que se adequem às mais diversas necessidades e resolvam problemas não convencionais. Desde barcos até tecnologias para navegação e mesmo passando por plataformas flutuantes, etc.

A parte prazerosa deste trabalho é poder utilizar as soluções que desenvolvemos. Atualmente estou com alguns projetos para embarcações motorizadas e é gratificante ver as novas ideias na prática. Fazendo um paralelo rápido com o setor automotivo, hoje não existe nenhum veículo que me agrade por completo. Mesmo os carros elétricos, que seriam uma boa opção a meu ver, têm pouca autonomia e perdem em diversos fatores.

Deve se levar em conta também o fato de que as restrições para a produção de veículos terrestres são muito maiores do que as voltadas para as embarcações, o que deve causar entraves no desenvolvimento de melhores produtos.

Se fôssemos classificar, eu diria que faço hoje veículos especiais, e acho que a indústria automotiva deve buscar o mesmo. Veículos menores, com maior eficiência e segurança.

Sincodiv-SP: Em suas viagens você é obrigado a tomar decisões cruciais, que podem definir o seu destino. Fazendo um paralelo com a liderança corporativa, qual o principal critério a ser pensado na tomada de grandes decisões?

Amyr Klink: Eu, particularmente, não gosto de transformar minhas experiências num corolário de práticas corporativas. Às vezes acho isso um pouco de oportunismo (risos). Entretanto, a questão da liderança é realmente importante. Entre tantas características necessárias, acredito que conhecer muito do negócio onde se atua seja fundamental, mas, mais que isso, estar aberto a aprender novas formas de condução e se adaptar.

Hoje, falta muito ao líder corporativo uma sensibilidade de entender o contexto de sua área de atuação e aprender com outros, não só tecnicamente. Ao contrário do carro, onde há apenas um condutor, os barcos são pensados para uma condução conjunta. Entretanto, pelas minhas experiências solitárias, já vi sobre mim essa prerrogativa de tomar todas as decisões, o que é muito duro, às vezes. O ideal é observar e se lembrar de atividades diversas e saber aprender e se adaptar. Às vezes os produtos e os serviços em si não mudam muito, mas mudam as tecnologias por trás dele ou a forma de concebê-lo.

Sendo bem raso, vamos pensar num molho de pimenta. É um produto praticamente caseiro e artesanal e que não tem muita tecnologia em si, mas sua industrialização exige uma evolução. Ou seja, muitas vezes ficamos muito presos ao produto final, mas a criatividade deve estar presente nos bastidores também.

Quando falo de contexto é importante lembrar que, na "condução" de um automóvel ou de um barco, existem muitas pessoas envolvidas. Desde os engenheiros e projetistas até o vendedor na ponta com o consumidor. Ter um olhar amplo é essencial na liderança.

Sincodiv-SP: Já que passa muito tempo viajando, o que significa o retorno para você, qual é a sensação de aportar, quando está claro que você vive para navegar?

Amyr Klink: As pessoas podem pensar que as grandes viagens e a sua conclusão são muito importantes, mas até mesmo as curtas são gratificantes. Seja numa volta ao mundo ou numa navegação de dois ou três dias, o que importa não é exatamente a chegada ao destino, mas sim o encerramento de todo um processo que nos levou até ali. Desse ponto de vista, o retorno é muito mais prazeroso do que a viagem, até porque a volta (e a esperada conclusão de uma jornada), muitas vezes, significa o início de uma nova.

Quando voltei de uma das minhas viagens (de mais de 20 meses) da Antártica, por exemplo, fiquei feliz com o desempenho da minha embarcação, mas estava determinado a construir uma outra. Uma viagem bem sucedida com um barco não me fez acabar um ciclo e ficar feliz com a experiência apenas, mas me motivou a construir uma nova.

O final determina um novo desafio!

 

 

Para ler a segunda parte da entrevista com Amyr Klink, clique aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação