Bate-papo com Adriana de Oliveira Melo, médica e cientista, pioneira nos estudos do Zika Vírus e da Microcefalia 
Por Guilherme Alferes e Silvia Pimentel


Juliana Falcão

Durante o ano de 2015, o Brasil viveu um surto provocado por um vírus até então pouco conhecido, o Zika. Assim como a dengue, febre amarela e Chikungunya, é transmitido pelo Aedes aegypti, também conhecido como mosquito da dengue.  

Até então, o Zika era considerado o menos agressivo dos vírus, em comparação às outras doenças transmitidas pelo inseto, o que se revelou não ser real por conta de estudos que a médica nordestina dra. Adriana de Oliveira Melo coordenou junto a outros pesquisadores. A obstetra e especialista em saúde materno-infantil foi uma das primeiras a comprovar a relação entre o vírus e o crescente número de crianças nascidas com microcefalia.

Adriana é atualmente presidente do Ipesq (Instituto Professor Joaquim Amorim Neto de Desenvolvimento, Fomento e Assistência a Pesquisa Científica e Extensão), que existe há 10 anos e, nos últimos quatro anos, passou a oferecer tratamento médico especializado a crianças nascidas com a má formação no cérebro, além de assistência para as mães e pais, em Campina Grande, na Paraíba.

Nesta entrevista ao Sincodiv-SP Online, a médica fala sobre sua descoberta, a paixão pela pesquisa, a sobrevivência do Instituto e destaca a necessidade de investimentos para a elaboração de estudos científicos no Brasil. Confira:

 

Sincodiv-SP Online: Pode nos contar um pouco sobre sua história pessoal? Onde nasceu? Como foi sua infância? Seus pais atuavam na área da saúde?

Dra. Adriana de Oliveira: Eu nasci na cidade de Crato, no Ceará, mas minha família é da Paraíba. Vivi minha infância e adolescência toda numa cidadezinha de dois mil habitantes, perto de Campina Grande, onde eu moro hoje. Meu pai é motorista de taxi e minha mãe, costureira. Na área da saúde, tenho uma prima, que é médica.

 

Sincodiv-SP Online: O que levou a escolher a medicina? Teve influência da sua prima?

Dra. Adriana de Oliveira: A origem da minha família é simples e logo cedo entendemos que só através do estudo e trabalho conseguiríamos mudar a realidade. Meus tios, primos e irmão escolheram a engenharia, mas desde o começo, apesar de gostar muito de matemática, a medicina me atraia.

Aos 17 anos prestei vestibular para Medicina e Odontologia, passei e escolhi a primeira. Apesar de ter optado por ser médica, nunca gostei muito de morte, daí a escolha da obstetrícia, cujo principal objetivo é trazer luz a novas vidas.

 

Sincodiv-SP Online: Em uma audiência pública em Brasília, a senhora afirmou que fazer a descoberta sobre as causas da microcefalia foi a parte mais fácil. Poderia discorrer mais sobre isso? O que é mais desafiador nesse contexto?

Dra. Adriana de Oliveira: Primeiro, o mais desafiador foi pensar no que fazer com essa descoberta. A gente vive uma crise social no país. Já sabíamos que as maiores vítimas eram pessoas de renda muito baixa e já existia uma demanda reprimida em termos de serviços de assistência à criança com deficiência.

A pergunta que eu me fazia era: "o que seria feito com essas crianças?". Por ser uma doença nova, não havia como seguir protocolos, então o serviço público não ia estar preparado para as diferenças que tinha essa doença em relação a outras. Tanto é que os primeiros protocolos foram realizados baseados nos conhecidos sobre paralisia cerebral por hipóxia, que é a falta de oxigênio.

Eu sabia que o grande desafio seria estabelecer protocolos de assistência, e isso só daria certo se a pesquisa andasse junto da assistência. Foi esse o modelo que a gente propôs, ou seja, um serviço onde se fizesse primeiro a pesquisa para entender o que é a doença e a partir daí mudar os protocolos para, de fato, ajudar as pessoas.

É justamente essa última parte que é a mais trabalhosa. Atuar na pesquisa para a descoberta e escrever um artigo terminou relativamente fácil frente ao desafio de cuidar de 150 crianças - tendo 10 novas crianças precisando de vaga para atendimento por dia.

 

Sincodiv-SP Online: Em algumas palestras, você comenta que o comportamento das mães e pais ao irem ao seu consultório mudou. O que antes eram momentos de felicidade, se tornaram de apreensão. Você acha que o SUS (Sistema Único de Saúde) presta um bom atendimento a essas famílias? O que precisa melhorar?

Dra. Adriana de Oliveira: A gente tem um problema muito grande já no número de vagas para atender crianças com deficiência. Se a gente for olhar o tratamento e a quantidade de leitos de reabilitação, não há nenhum que seja público, voltado só para crianças.

Há falta de vagas, e quando essas crianças conseguem terapias, são oferecidas uma ou duas sessões por semana apenas. Quando alguém torce o pé, por exemplo, tem de ser feita a fisioterapia todos os dias. Imagine uma criança com um problema sério no cérebro, que demanda tratamento para que esse cérebro aprenda a pensar.

E para complicar o quadro, as mães, quando não veem a evolução dos filhos, se sentem desestimuladas a prosseguir com os tratamentos. Quando querem questionar alguma coisa e o profissional não está entendendo da doença acontece o mesmo.  

Eu acho que tem muito a avançar, não só em relação ao Zika, mas ao atendimento às crianças com deficiência e, também, às famílias como um todo.

 

Sincodiv-SP Online: Falando sobre pesquisa científica, já que preside o Ipesq, como avalia a condição de quem faz pesquisa no Brasil?

Dra. Adriana de Oliveira: Eu, sinceramente, já tentei desistir de fazer pesquisa porque é muito sofrido. Pesquisadores não são valorizados, principalmente aqui no interior do Nordeste.

Não existe verba para pesquisa. Mesmo a gente fazendo uma descoberta como essa ligada ao Zika, só fomos receber verba do CNPq* mais de um ano depois, quando a epidemia praticamente havia acabado.

De 2015 a 2017, fizemos tudo com recursos próprios. Isso é muito desgastante, porque ter as ideias, ver as coisas acontecerem sabendo que pode contribuir, mas sem ter recursos, restringe todo o potencial para a evolução do trabalho de pesquisa.

O Brasil – Estado e suas instituições privadas – não valoriza a pesquisa, nem quem a faz. Nem professores de faculdade, como eu, têm uma carga horária menor para poder fazer pesquisa. Dificilmente você vai ter um tempo liberado pela faculdade para fazer isso. Eu faço pesquisa, hoje, no meu horário de folga, isso faz com que a gente repense se é realmente isso que queremos para nossas vidas. Você vê o resultado, os artigos saindo, mas a que preço?!

Já tentei desistir várias vezes, o problema é que – e eu acho que é disso que o governo se aproveita - quem gosta de fazer pesquisa, faz por amor. A gente acaba querendo fazer mesmo sem ter condições.

*CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) é um órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, do Governo Federal, que disponibiliza incentivos à pesquisa no Brasil.

 

Para ler a última parte da entrevista, acesse Bate-papo com Adriana de Oliveira Melo, médica e cientista, pioneira nos estudos do Zika Vírus e Microcefalia (PARTE 2)  

Produção e edição

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