Bate-papo com Adriana de Oliveira Melo, médica e cientista, pioneira nos estudos do Zika Vírus e da Microcefalia - PARTE 2
Por Guilherme Alferes e Silvia Pimentel


Juliana Falcão

Sincodiv-SP Online: Na sua avaliação, o que acontece no Brasil que desfavorece o desenvolvimento científico e deve ser melhorado?

Dra. Adriana de Oliveira: Primeiramente, toda vez que alguém termina um doutorado, deveria ter um estímulo para a pesquisa. Eu já disse algumas vezes "eu não sei porque deixam a gente fazer doutorado". Digo isso porque não tem de onde arranjar recursos a partir daí para que o acadêmico, pesquisador, possa dar sequência ao trabalho.

Uma vez por ano lançavam um edital universal do CNPq. Às vezes, disponibilizavam R$ 70 mil, R$ 120 mil para uma pesquisa, mas isso é muito pouco. Este ano, por exemplo, não houve nem isso.

A gente fica esperando que o CNPq libere editais – e isso pode acontecer ou não –, mas nem sempre os editais que eles liberam, a gente pode concorrer, porque depende das exigências, do tema etc.

Deveria existir em todos os estados fundações fortes para as quais pesquisadores pudessem mandar os projetos independente do lançamento de edital. Esse não é o caso da Paraíba. Não temos um fluxo contínuo de verba para a pesquisa. Precisamos esperar pelo edital, analisar se podemos concorrer, e mesmo saindo a verba de custeio da pesquisa, o pesquisador/coordenador, como pessoa física, não pode receber bolsa. Ou seja, o coordenador, que idealizou a pesquisa, escreveu o projeto, vai coordenar o campo e escrever os artigos depois, tem que trabalhar voluntariamente, sem receber nada em troca.

Desde que eu decidi ser pesquisadora, quem manteve minhas pesquisas foi minha clínica particular. Por falta de recursos oficiais, você acaba dando algum jeito. Agora estou pensando em lançar uma "vaquinha" virtual para a pesquisa.

 

Sincodiv-SP Online: Como o Ipesq sobrevive?

Dra. Adriana de Oliveira: A parte de assistência e atendimento sobrevive de doações. Para a parte de pesquisa, conseguimos com que dois projetos tivessem verba de dois editais, mas o dinheiro está acabando agora. Também há uma ONG brasileira, chamada Fraternidade Sem Fronteiras, que trabalha com crianças na África, mas nos escolheu como primeira entidade brasileira apoiada. Além disso, temos um sistema de apadrinhamento, em que as pessoas doam 50 reais por mês para o tratamento das crianças que escolher ajudar.

O problema é que isso tudo não tem sido suficiente, porque todo dia temos mais crianças pedindo vagas. Para atendermos todas, precisamos manter a casa de apoio, que recebe essas mães, pagar alimentação, energia e todos os custos dessa assistência.

Apesar de todas essas dificuldades, a gente abriu uma unidade em Minas Gerais, para atender as crianças do Sudeste; também estamos apoiando a Associação de Pais de Maceió, em Alagoas.

Entre novembro e dezembro, fomos para a África porque tivemos um caso de uma criança vinda de Angola e a criança voltou para lá, então fizemos o acompanhamento dos primeiros seis meses dela. Vimos no continente africano muitas crianças com casos parecidos, por isso seria fantástico poder abrir uma filial lá também. É um sonho, mas difícil de realizar.

O administrativo do Instituto informou recentemente que a gente vai ter que reduzir o pessoal porque as doações não estão sendo suficientes para pagar tudo. Enfim, não é nada simples!

 

Sincodiv-SP Online: Na sua opinião, as políticas de incentivo à pesquisa científica deveriam envolver mais a iniciativa privada, ou entende que essa é uma responsabilidade do Estado?

Dra. Adriana de Oliveira: Eu entendo que pode ser um misto, dependendo do interesse, mas sempre ter o apoio governamental porque na saúde não funciona muito bem com a pesquisa pensada exclusivamente como meio para se obter lucro lá na frente.

A pesquisa que gera mais interesse é aquela que pode dar lucro, como as que envolvem tecnologia, equipamentos e softwares, entre outras. Na área da saúde, são as que geram medicamentos, mas aqueles estudos voltados à prevenção, que estabelecem protocolos para tratamento de doenças, são muito difíceis de gerar interesse e, portanto, deveriam receber atenção especial do sistema público de saúde para o custeio.  

A iniciativa privada precisa de lucros, o que nem sempre temos nas pesquisas em Saúde. É claro que existem exceções, como a Fundação Gates (do empresário norte-americano Bill Gates), que promove pesquisas e não visam esse lucro.

 

Sincodiv-SP Online: Há dados sobre o número de crianças com microcefalia no Brasil? E quantas crianças vocês atendem?

Dra. Adriana de Oliveira: São três mil casos confirmados, mas tem quase o mesmo número – em torno de três mil - de casos suspeitos. Em Campina Grande, a gente atende cerca de 150 crianças por mês, mesmo tendo verba para atender apenas 100. A intenção é que atendamos mais 150 em Belo Horizonte e em Maceió são cerca de 200 crianças. Fora na África, que não sabemos ainda.  

Esse é um trabalho tão importante quanto à pesquisa em si porque fornece subsídios para novas descobertas, alimentando um ciclo que é virtuoso para a sociedade e o trabalho dos cientistas.

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