Bate-papo com Francisco das Chagas Neto, criador da CH & Cia., potiguar especialista em doces árabes
Por Silvia Pimentel e Juliana de Moraes


Divulgação

De um sobrado em uma pacata rua da Vila Cisper, na zona leste de São Paulo, saem diariamente cerca de cinco mil unidades de doces árabes frescos. No local, funciona a cozinha da CH & Cia., uma empresa com a cara do Brasil. Ela é dirigida por Francisco das Chagas Neto, um dos principais fornecedores da guloseima para restaurantes e empórios árabes localizados em vários estados do país.  

O senhor Chico, como é conhecido, é potiguar. Nasceu no Rio Grande do Norte, viveu boa parte da infância e juventude na cidade de Iguatu, no sul do Ceará, e empreendeu na capital paulista, onde chegou em 1977. Depois de atuar como servente de pedreiro, encontrou trabalho em um restaurante libanês, no Brás, ponto de encontro de árabes que negociavam tecidos na região. Lá, se apaixonou pelos segredos da culinária e aprendeu tudo o que pôde até o dia em que se sentiu seguro para arriscar lançar seu próprio negócio. 

Antes de abrir a CH & Cia., Chico chegou a fabricar pães árabes e a chefiar a cozinha do restaurante do Club Homs, tradicional reduto da comunidade árabe. Atualmente, os seus doces também ilustram os cardápios de estabelecimentos de Campo Grande, Paraná, Belo Horizonte, algumas cidades do Sul de Minas, e Mato Grosso. Nesta entrevista ao Sincodiv-SP, o empresário nordestino especialista em doces árabes conta um pouco sobre as transformações desse mercado e como a qualidade de seus produtos consegue vencer a concorrência, mesmo diante de uma gestão pouco informatizada.

 

Sincodiv-SP Online: Como se deu a oportunidade de abrir a empresa de doces árabes?

Francisco das Chagas Neto: Cheguei a São Paulo em 1977 e trabalhei em vários lugares, inclusive como servente de pedreiro, até conseguir trabalho em um restaurante árabe, localizado no Brás, onde tive o primeiro contato com a culinária da região. Comecei a trabalhar como auxiliar de limpeza, depois passei a fazer horas extras no setor da produção do pão árabe e dos doces. Fui promovido a encarregado de produção e, mais tarde, a chefe geral do estabelecimento.

Depois de aprender muito sobre como lidar com funcionários e a produzir pães e doces árabes, resolvi abrir o próprio negócio, em 1985, quando um senhor italiano me cedeu um espaço no bairro do Belenzinho sem que eu precisasse de fiador ou pagar depósito. Antes disso, porém, trabalhei na cozinha do Clube Homs, na Avenida Paulista, e tive uma pequena fábrica de pães árabes.

 

Sincodiv-SP Online: Quais eram os diferenciais dos produtos inicialmente? Atendimento conquistou clientes?

Francisco das Chagas Neto: A concorrência, na época, era quase nula. Hoje, há mais novidades e um maior conhecimento sobre o processo de produção dos doces, elaborados de forma bem artesanal. Acho que o fato de não usar produtos industrializados foi, e a inda é, o principal diferencial das minhas sobremesas. Também ouço com atenção eventuais reclamações dos clientes e sempre procuro melhorar meu processo de fabricação.

 

Sincodiv-SP Online: Atualmente, qual é produção mensal? Quantos são os tipos de doces que oferece?

Francisco das Chagas Neto: Fabricamos, em média, 40 tipos de doces da culinária árabe. O processo de fabricação de todos não é muito diferente, em essência. O que muda é o formato da guloseima e o recheio.

Temos uma produção de seis mil doces por dia que são distribuídos a restaurantes de São Paulo e de outros estados brasileiros.

 

Sincodiv-SP Online: Quantos restaurantes árabes na cidade de São Paulo revendem suas sobremesas?  E no país? Como funciona esse mercado?

Francisco das Chagas Neto: Na capital paulista, entregamos uma média de dois mil doces por dia. Os compradores são restaurantes árabes e empórios, que perfazem cerca de 30 clientes.

No passado, o forte das vendas era a região da tradicional Rua 25 de Março, atualmente tomada por chineses. Os restaurantes árabes permanecem, mas a região perdeu as suas características culturais com a prevalência de lojas de bijouterias. As vendas caíram nessa região por conta do aumento da concorrência.

Vendo, também, para restaurantes do Mato Grosso do Sul, Paraná, Minas Gerais, algumas cidades do Sul de Minas, Mato Grosso e todo o interior de São Paulo. Atualmente, de forma eventual, restaurantes do Norte e do Nordeste compram pequenas quantidades. Ainda não entramos nesses mercados de forma mais consistente. 

 

Sincodiv-SP Online: A sua empresa nasceu na década de 90, em que se usava equipamentos como fax na comunicação com clientes e fornecedores. Como usa a tecnologia atualmente? Vende pela internet?

Francisco das Chagas Neto: A empresa tem um site, onde muitos donos de restaurantes entram em contato. Não vendemos de forma online, pois o site funciona mais como um cartão de visitas.

O envio dos doces é feito por meio de transportadora. Há clientes que compram há mais de dez anos e não os conheço pessoalmente. De qualquer forma, foi construída uma relação de confiança que é essencial ao negócio, tanto o meu, quanto o de quem é comprador.

 

Sincodiv-SP Online: Como vencer a concorrência em um mercado cada vez mais disputado. Sabe-se que houve um aumento no número de produtores de doces árabes entre refugiados em alguns bairros de são Paulo. Como sobreviver?

Francisco das Chagas Neto: Houve um aumento grande da concorrência nesse mercado de doces. Tem muita gente fabricando doce, inclusive em casa. Porém, na mesma velocidade da expansão do número de pessoas que estão produzindo, cresceu também o conhecimento sobre a cultura árabe e, consequentemente, do consumo da sua culinária.

Antigamente, só comiam os doces os descendentes de árabes. Hoje, essas sobremesas conquistaram o paladar dos brasileiros. Sobre o aumento da concorrência, acho que há clientes para todos. Acredito que ainda estou no mercado porque primo pela qualidade, sempre.

 

Confira a segunda parte da entrevista Bate-papo com Francisco das Chagas Neto, criador da CH & Cia., potiguar especialista em doces árabes – PARTE 2

 

Produção e edição

Voltar

Nenhum comentário



Nenhuma foto


...(omitted for brevity)...