Bate-papo com Juarez (Jay) Faria, fundador da Airtrade Aviation – empresa de coração brasileiro, com sede nos EUA
Por Juliana de Moraes e Silvia Pimentel


Divulgação

Na adolescência, Juarez Faria tinha um sonho: ser engenheiro de Aviação. O que ele não podia imaginar era seu tino para a área comercial, o apelido Jay que virou "nome" - para facilitar o contato com clientes norte-americanos - e uma série de oportunidades profissionais que culminaram com a "decolagem" da Airtrade Aviation em 1989.

A empresa do setor de aviação executiva criada pelo empreendedor mineiro tem presença física nos dois maiores mercados desse setor no mundo: Estados Unidos e Brasil. Desde 2003 com sede em Fort Lauderdale (Flórida, EUA), possui unidades de representação em Pampulha (Minas Gerais) e na França.

Desconhecido de boa parte do público, o setor de aviação executiva é aquele composto essencialmente por aeronaves menores, entre elas os jatos e helicópteros, que estão a serviço de empreendedores, executivos e usuários particulares, movimentando um mercado que, no Brasil, leva pessoas a mais de 1.200 cidades do país, enquanto a aviação comercial está presente em apenas 105 aeroportos.

Nesta entrevista exclusiva ao Sincodiv-SP Online, Faria conta sua trajetória, explica sobre o funcionamento deste complexo setor e compartilha sua visão sobre o papel do atendimento centrado na oferta de soluções (e não apenas produtos ou serviços) como fator essencial para a atração e retenção de clientes.

 

Sincodiv-SP Online: Como se deu seu ingresso na área de Engenharia de Aviação?

Juarez Faria: Sempre fui motivado pelo meu pai a estudar e seguir a carreira dos meus sonhos. Em Minas Gerais, ele trabalhava com venda de calçados, mas também tinha o sonho de ter um filho formado em Engenharia. Era uma pessoa simples, mas bem relacionada. Conhecia muita gente. Foi assim que, durante o curso técnico no Ensino Médio, falei para ele que gostaria de trabalhar com aviação, e ele prontamente fez contatos para me apresentar a um executivo que poderia oferecer uma vaga de estágio na área.

Muito depois, fui descobrir que dei uma sorte danada porque meu nome foi levado à empresa, Líder Aviação, no último dia de trabalho desse profissional (conhecido) no grupo. Fato é que consegui uma oportunidade na companhia e segui carreira na área, entrando depois para a faculdade de Engenharia de Aviação na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Minha segunda experiência profissional que considero importante foi o tempo em que trabalhei na Embraer, em São José dos Campos, como engenheiro júnior. Lá, e na época a empresa era estatal, fiz de tudo um pouco, de suporte para a área de pintura, controle técnico, hidráulica, pneumática, venda, exportação e importação. Foi confuso, devo confessar, mas também um enorme aprendizado. E sob esse ponto de vista, tive muita sorte.

 

Sincodiv-SP Online: De engenheiro a empreendedor no setor de Aviação Executiva... A criação da Airtrade no Brasil se deu em que contexto?

Juarez Faria: De novo, acho que fui beneficiado por uma dessas coincidências da vida... Chegou um momento em que recebi uma proposta da Cemig para atuar em um escritório deles na França e fui para Belo Horizonte para acertar os detalhes da mudança que, ao final, não aconteceu. Mas, na ocasião, encontrei um diretor da Líder Aviação que fez o convite para que eu voltasse para a empresa, agora como profissional gestor da área comercial.

Eu já estava comprometido com a mudança para outro emprego, mas ele insistiu que almoçássemos e lá fui eu, de terno, o único que eu tinha e a tal gravata de crochê, que era moda na época. Lembrando agora, é engraçado, mas foi esse encontro no meio de um grande desencontro, que se tornou a oportunidade da minha carreira para aprender a empreender. 

A mudança para a Cemig não deu certo, mas acabei na Líder Aviação numa vaga que nem era exatamente a que haviam me oferecido originalmente – assumi uma posição na área de Eletrônica - , mas fato é que, em 1987, iniciei uma jornada acelerada, em que cresci muito dentro da empresa pelas oportunidades que surgiram, especialmente desenvolvendo atividades na área comercial - para minha sorte.

Trabalhar em uma empesa familiar pode ser bastante desafiador, especialmente uma organização tradicional como a Líder Aviação, que na época estava em fase de transição de gestão, com profissionais mais antigos e jovens tendo que conciliar ideias e propostas de atuação. Foi nesse contexto que, em 1989, negociei a saída para começar meu próprio negócio, a Airtrade Aviation, na qual minha esposa, a Andrea, depois também ingressou e hoje desempenha um papel essencial na gestão das equipes.

 

Sincodiv-SP Online: Quais serviços presta a Airtrade? Quais deles tem maior relevância para o negócio?

Juarez Faria: Nossa proposta de trabalho é oferecer o gerenciamento de ativo aeronáutico, num leque bastante completo de serviços de consultoria para compra e venda, gestão comercial e manutenção de aeronaves executivas. Fazemos também o transporte aéreo executivo por meio de aviões próprios.

Comprar, especialmente aeronaves seminovas, requer uma série de estudos, análises técnicas e de documentação. Provemos essas assessorias, além da manutenção, trâmites da importação, exportação, viabilizamos financiamento, contratação de seguro e o treinamento da equipe de voo. É um trabalho técnico e complexo, mas que garante a segurança de tudo o que envolve a compra de uma aeronave e de um voo.

Depois que a aeronave é adquirida, o proprietário pode custear a manutenção do equipamento e até obter a rentabilidade do ativo por meio da locação da aeronave para empresas de transporte aéreo executivo (táxi aéreo). Para não haver conflito de interesses, fazemos essa gestão apenas junto a outras companhias de transporte executivo, nunca com a própria Airtrade.  

Neste último caso, gerenciamos todas as atividades da operação, incluindo o acompanhamento da manutenção, substituição de peças, garantindo a melhor rentabilidade para o proprietário da aeronave. Ou seja, auditamos essa operação de "locação". 

No centro das nossas operações, estão justamente a consultoria, as transações aeronáuticas e a manutenção, que envolve o planejamento das tarefas para garantir a segurança da aeronave.

 

Sincodiv-SP Online: Quando foi que você percebeu a oportunidade de trazer a empresa para os EUA? Como transcorreu essa transição?

Juarez Faria: Eu já fazia diversos negócios vindo para os Estados Unidos, principalmente importando aeronaves, quando resolvemos trazer a operação para o país. Foi em 2003 e essa decisão se deu por diversos fatores, perspectivas políticas do Brasil na época, da gestão dos órgãos regulatórios, e questões pessoais também. O ambiente mais seguro para a família foi um fator relevante.

Nos EUA, o conhecimento técnico que dispomos tem muito mais valor do que no mercado brasileiro. Além disso, todos os trâmites burocráticos envolvendo aquisição e venda de aeronaves são mais simples nos Estados Unidos. O treinamento de pilotos, em minha avaliação, é também melhor e mais completo do que no Brasil, portanto, tínhamos como oferecer esse suporte para os nossos clientes de maneira mais profissional estando no país.

De certa forma, também houve uma certa desilusão em relação a atuar no Brasil. Veja o que aconteceu com as grandes empresas brasileiras Transbrasil, Vasp e Varig... Hoje, o segmento se reinventou, mas ainda assim tem dificuldades para evoluir porque existem problemas de base, seja na formação de pilotos (deixamos de atuar nessa área no Brasil), seja no controle concentrado da Infraero sobre todas as operações aeroportuárias.

 

Sincodiv-SP Online: O que, na sua opinião, foi a maior dificuldade para adaptar o negócio ao mercado norte-americano? E quais as vantagens de se operar nos EUA em relação ao Brasil?

Juarez Faria: Certamente, como uma empresa de médio porte, enfrentamos barreiras culturais. Não há dúvidas de que, por termos origem em um outro país (que não os EUA), há resistência de parte do público de clientes. O americano é bastante fechado e mesmo estando no país há quase 20 anos, ainda sentimos que há certa desconfiança.

No mais, aqui vale o conhecimento. A logística de fornecimento de peças, por exemplo, é tão mais ágil. As regras são aplicáveis, a legislação é factível. É tudo tão mais simples. Isso sem falar na menor burocracia dos órgãos de fiscalização.

 

Para ler a última parte da entrevista, acesse, Bate-papo com Juarez (Jay) Faria, fundador da Airtrade Aviation – empresa de coração brasileiro, com sede nos EUA – PARTE 2

 

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