Bate-papo com Sergio Tufik, médico fundador do Instituto do Sono em São Paulo
Por Silvia Pimentel e Juliana de Moraes


Divulgação

Não estava nos planos de Sergio Tufik se tornar um especialista em Medicina do Sono, mas o tema assumiu papel protagonista em seu projeto de doutorado, no final da década de 70, e desde então ele comanda uma série de trabalhos ligados ao assunto, o que culminou com a fundação do Instituto do Sono, em São Paulo, ligado à Afip (Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa).

A organização dirigida pelo médico produz estudos, cursos para profissionais da área da Saúde, tratamento para pessoas com distúrbio do sono e é reconhecida pelo trabalho científico. Hoje, já se sabe: devemos passar pelo menos um terço da vida de olhos fechados. Por meio do sono, proporcionamos ao organismo as condições para que ele mantenha o equilíbrio de suas funções físicas e psicológicas.

Já a ausência de descanso, traz uma série malefícios. Do ponto de vista intelectual, a falta de sono afeta a atenção, o aprendizado e a memória. São várias as habilidades prejudicadas e, justamente, aquelas que interferem na produtividade e inovação, duas importantes características e das mais requisitadas no universo corporativo.

Na entrevista ao Sincodiv SP Online, o especialista fala sobre sua trajetória, aborda as fases mais importantes e determinantes para a qualidade do sono, quais os distúrbios mais comuns que afetam a homens e mulheres e quando é preciso procurar ajuda de um profissional da saúde.

 

Sincodiv SP Online: O senhor é médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, mestre em Fisiologia pela Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto e doutor em Psicofarmacologia pela Escola Paulista de Medicina. Em que momento surgiu o interesse para pesquisar sobre o tema sono?

Sergio Tufik: Depois concluir minha dissertação de mestrado em Neurofisiologia (estudos sobre o sistema nervoso) na USP de Ribeirão Preto, vim para São Paulo para iniciar um projeto de doutorado pela Escola Paulista de Medicina. O trabalho de pesquisa inicial, envolvendo os efeitos da maconha no cérebro, não evoluiu. Não conseguimos comprovar nossas suspeitas iniciais.

Foi aí que o tema do sono ganhou espaço. Em alguns testes com animais (ainda no projeto sobre os efeitos da erva), identifiquei que a privação de sono os levava à morte. Foi então que comecei a me dedicar a essa área. Defendi minha tese em 1977 e, em 1979, foi publicada a primeira classificação sobre sono no mundo. Participei de congressos internacionais para apresentar os resultados do estudo e, então, uma série de novas oportunidades surgiram para a continuidade dos projetos ligados à área.

 

Sincodiv SP Online: Quais as principais conclusões a que chegou nos estudos relacionados ao sono?

Sergio Tufik: Sem os ciclos importantes de sono completados durante a noite, as pessoas perdem a capacidade para pensar, raciocinar e memorizar! É grave o que acontece.

 Do ponto de vista metabólico, a falta de sono interfere no funcionamento de vários sistemas do organismo, como o imunológico, endócrino e gástrico. Concluímos que o sono, tal como a água e a comida, é fundamental à vida, portanto não devemos negligenciar as noites mal dormidas como se fossem algo irrelevante, ou situações ordinárias, em nossas vidas.  

 

Sincodiv SP Online: E como o Instituto do Sono vem contribuindo para o entendimento do assunto?

Sergio Tufik: No âmbito do Instituto do Sono, desenvolvemos um dos primeiros e mais importantes estudos sobre o tema, realizado na cidade de São Paulo, o Episono, cujos resultados podem ser transpostos para Brasil.

Os dados da pesquisa, envolvendo mil participantes, mostram que 45% das pessoas, sobretudo as mulheres, queixam-se de insônia ou dificuldades para dormir e 33% tem apneia do sono (pausas na respiração ou respiração pouco profunda durante o sono), um distúrbio que afeta mais os homens.

 

Sincodiv SP Online: Afinal, o que caracteriza uma boa noite de sono?

Sergio Tufik:  Muita gente pensa que só a quantidade de horas garante uma boa noite de sono.  E isso não é verdade. Trata-se de algo relevante para se saber.

É preciso ter de seis a oito horas diárias de sono, sim. Mas, mais importante do que a quantidade, é ter as fases do sono devidamente completadas durante a noite. As fases REM (Rapid Eye Movement) e Delta (a primeira parte do sono), são as mais importantes, pois são reparadoras, levando à sensação de bem-estar e descanso das pessoas. 

Na primeira metade da noite, temos muito a fase Delta. Na outra metade, temos mais REM. Há pessoas que dormem pouco, mas acordam descansadas porque aproveitaram muito essas duas fases. Então, a quantidade de sono deve também estar associada à qualidade do sono, que contemplam essas duas fases reparadoras.

 

Sincodiv SP Online: Há uma regra que sirva para todas as pessoas ou a necessidade de sono muda conforme a faixa etária ou varia de pessoa para pessoa?

Sergio Tufik: A quantidade de sono varia de acordo com a faixa etária. A gente começa dormindo 16 horas por dia. Uma criança de um a três meses, dorme oito horas em REM e mais oito horas nas fases mais lentas. Essa quantidade vai diminuindo ao longo da vida, afetando sobretudo a fase REM. 

É muito importante, então, manter um certo nível, de seis a oito horas de sono. Mas, depois de uma certa idade, nem todo mundo consegue manter esse patamar de forma contínua. Às vezes, dormimos de forma ininterrupta, o que se chama de sono essencial, por três ou quatro horas (a primeira metade do sono). Muitas pessoas acordam depois desse período e não conseguem mais dormir. Outros conseguem, mas de uma forma picada, de uma em uma hora.

O pior ocorre quando não se consegue mais dormir, independente da fase da noite. Isso faz com que as pessoas apelem para os remédios hipnóticos.

 

Sincodiv SP Online: O sono é como água e comida para o organismo, ou seja, é fundamental. Alimentos respondem por nutrientes, líquidos, hidratação. Qual o papel do sono?

Sergio Tufik: Experiências realizadas com ratos mostram que 10 dias sem sono levam o animal à morte. Durante 20 dias sem a fase REM, apenas, os ratos também morrem.

Na homeostase (processo que mantém o organismo em equilíbrio), há três vertentes muito importantes. A primeira é o alimento, cuja qualidade pode fragilizar o organismo.  A segunda é a atividade física. Mas não há nada que se gaste mais tempo na vida do que com o sono.

Normalmente, as pessoas gastam um terço da vida para fazer homeostase e manter o organismo em equilíbrio. Algumas pessoas passam a metade da vida dormindo. Então, a privação do sono causa problemas graves, afetando os sistemas imunológico, nervoso, endócrino e gástrico. 

 

Sincodiv SP Online: Do ponto de vista intelectual, qual a consequência de não se dormir o suficiente ou dormir sem qualidade? 

Sergio Tufik: O sono tem relação com a parte cognitiva, que envolve vários passos, começando pela atenção, passando pelo aprendizado e, por fim, a memória, que depende do sono para se organizar. E há o recall, o chamamento da memória. A privação do sono, portanto, afeta todo esse processo.

Perda de foco, negatividade na avaliação das situações – e mesmo dificuldade para realizar julgamentos -, além da diminuição da capacidade de identificar soluções para os problemas diários são outras consequências. Ou seja, a tão aclamada, criatividade é impactada.

 

Confira a segunda parte da entrevista Bate-papo com Sergio Tufik, médico fundador do Instituto do Sono em São Paulo – PARTE 2

 

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