Bate-papo sobre as novas relações no ambiente de trabalho em tempos de pandemia, com Ricardo Mota  
Por Silvia Pimentel


Divulgação/Sincodiv
Mota: "Sem pessoas, empresas são espaços com produtos, sem vida"

A pandemia do novo coronavírus afetou as relações interpessoais no ambiente de trabalho. A adoção do home office em atividades viáveis é o maior exemplo da ruptura com os sistemas tradicionais de trabalho desencadeada pelo isolamento social forçado, dando espaço a uma nova relação empregador-empregado.

Se, de um lado, o uso do sistema confere maior autonomia a colaboradores na administração do tempo e entrega de resultados, de outro, obriga empregadores a adotarem estratégias de comunicação e gestão à distância, além de ações voltadas a manter o nível de engajamento e produtividade.

"Não acredito que todos os segmentos passem a adotar o sistema de home office, mas aqueles que já colocaram em seus planos projetam uma redução significativa em suas despesas. O importante é entender quais as posições, áreas e funções podem trabalhar neste modelo, além de definir políticas claras e os recursos necessários para manter a segurança de dados da empresa", avalia Ricardo Mota, executivo da Saad Company -YSC.

Em entrevista ao Sincodiv-SP Online, Mota, que já coordenou o grupo de RH do Sindicato, aborda a importância cada vez maior da área responsável pela gestão de pessoas, especialmente no momento de crise desencadeada pela Covid-19, das políticas voltadas ao bem-estar de colaboradores na retomada de suas atividades e  tendências do setor pós-pandemia, como a intensificação dos processos seletivos digitais. Confira!!

 

Sincodiv-SP Online: O isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus tem ameaçado a saúde e o bem-estar de colaboradores. O que as empresas vêm fazendo para minimizar esses problemas?

Ricardo Mota: As empresas já vêm há algum tempo investindo no bem-estar e qualidade de vida das suas equipes por perceberem que, se não cuidarem de seus colaboradores, a produtividade será afetada. Obter o equilíbrio entre vida pessoal e profissional não é apenas desejável, mas necessário.

Algumas empresas oferecem programas de incentivo e descontos em academias. Outras buscam entender com profundidade as pessoas e aplicam instrumentos de tendência comportamental para identificar a atividade certa para a pessoa certa.

Com o isolamento social forçado, tivemos que aprender novos comportamentos, novas formas de relacionamento, gestão à distância, autonomia, feedback e gestão de resultados. A volta tem sido planejada, respeitando o distanciamento e dentre as iniciativas adotadas pelas empresas estão as reuniões e happy hours online, aulas de mindfulness, aulas de dança, palestras sobre como manter os hábitos e rotinas. São iniciativas importantes para incentivar e apoiar colaboradores a se adequarem a esta nova realidade.

Sincodiv-SP Online:  Em São Paulo, as concessionárias foram autorizadas a retomar o atendimento o presencial depois da assinatura de um termo de compromisso entre a prefeitura e o setor. Como convencer colaboradores a cumprirem os protocolos de saúde e higiene?

Ricardo Mota: Por insegurança e medo de contágio, em alguns segmentos, as pessoas estão resistentes em voltar ao trabalho, mesmo com os protocolos de saúde e higiene visando evitar o contágio por Covid-19. Penso que a comunicação com colaboradores é essencial nesse processo de retomada gradual das atividades econômicas. Uma das iniciativas primordiais é detalhar os procedimentos recomendados e mostrar a importância de respeitá-los.  

Sincodiv-SP Online: As medidas emergenciais adotadas pelo governo no início da pandemia para manter empresas e empregos exigiram dos gestores de RH rapidez e bom senso nas tratativas com colaboradores. Acha que esse departamento tende a ganhar importância nas organizações daqui para a frente? O que deve mudar?

Ricardo Mota: A área de RH é essencial para os negócios a qualquer tempo, mas, nesta pandemia, assumiu o protagonismo não apenas para interpretar e informar sobre as regras e leis editadas pelo governo, mas para humanizar esse momento de tantas incertezas.

O RH é vital para apoiar e direcionar a gestão de pessoas. E não há como falar de futuro de um negócio sem ter em seu DNA o foco no indivíduo. Sem as pessoas, as empresas são apenas espaços com produtos, sem vida.

Vivenciamos claramente as incertezas do momento e pudemos comprovar que as companhias mais bem estruturadas com seu RH têm conseguido superar em menor tempo os problemas gerados por essa crise de saúde sem precedentes.    

Sincodiv-SP Online: Sistemas de home office e teletrabalho foram intensificados pelas empresas, especialmente na área de serviços, que já usavam eventualmente, quebrando a resistência de quem nunca havia experimentado. Na sua opinião, como serão as relações sociais no ambiente de trabalho sem o "olho no olho"?

Ricardo Mota: Na verdade, não tínhamos a prática do home office. Algumas empresas até pareciam ter, mas em geral era usado por meio de um acordo pontual. O que tivemos foi uma imposição do cenário e fomos obrigados a nos adequar à realidade de forma rápida. Percebemos que nem todos conseguem e têm estrutura para esse sistema de trabalho. No entanto, muitas empresas descobriram e aumentaram seus resultados neste modelo.

Pesquisa recente da Revista Exame mostra que 76% das empresas estão considerando manter o HO como um modelo contínuo. As relações interpessoais, entretanto, continuarão sendo importantes e necessárias, mas poderão ser administradas conforme a necessidade e o produto.

Não acredito que todos os segmentos consigam manter o modelo, mas os que já colocaram em seus planos projetam uma redução gigante em suas despesas. O importante é entender quais as posições, áreas e funções podem trabalhar em home office, além de definir políticas claras e os recursos necessários para garantir a segurança dos dados da empresa.

Sincodiv-SP Online: Na sua opinião, quais os diferenciais que separam o grupo de empresas que estavam preparadas para o enfrentamento da crise provocada pelo coronavírus daquele que foi pego de surpresa, que nunca investiu no desenvolvimento de colaboradores?

Ricardo Mota: As empresas mais bem estruturadas com seu RH conseguiram superar em menor tempo este momento. As companhias preparadas sabiam o que fazer e como fazer. Tinham definidos quais eram as prioridades e como seria o trabalho remoto. Tinham processos de gestão à distância e acompanhamento de produtividade.

Todas as mudanças, inclusive as inesperadas, geram inseguranças e medos. O importante é ter um time alinhado, com objetivo claro, direcionamento e transparência para vencer obstáculos.

Sincodiv-SP Online: Os modelos tradicionais de seleção de candidatos tendem a desaparecer nas grandes empresas, principalmente após a pandemia? Quais as alternativas disponíveis atualmente para encontrar os melhores candidatos de forma cada vez menos presencial?

Ricardo Mota: Os modelos já mudaram há algum tempo. Só ganharam ainda mais força. Hoje temos sistemas com inteligência artificial que nos ajudam a encontrar os empregados mais alinhados, seja pela competência, cultura, conhecimento ou ‘matching’ com a empresa. Temos no Brasil ferramentas que, inclusive, permitem fazer recrutamento às cegas.

O que precisamos é mudar o modelo mental das pessoas para que tudo seja uma reunião presencial. Os custos nesse novo modelo reduzem e muito o valor de um processo seletivo. Além disso, todos os candidatos que passam por modelos como este de recrutamento recebem um feedback sobre o processo, e sabemos que este é um dos itens mais pedidos por eles. Então, não só melhora o resultado como a experiencia dos candidatos, assim como a marca empregadora.

Sincodiv-SP Online: Diversidade. Como convencer líderes da importância de um ambiente de trabalho diverso e plural, em que a cor da pele, religião, gênero e orientação sexual não sejam obstáculos na seleção de candidatos?

Ricardo Mota: Esse ainda é um tabu nas organizações. Já demos longos passos, mas estamos longe de ser referência. Esta pandemia nos mostrou que não temos como continuar vivendo como se fôssemos todos iguais. A riqueza está na pluralidade e na troca. Quanto mais diversos formos, mais entenderemos o nosso cliente, que faz parte dessa diversidade, e encontraremos soluções com mais facilidade para todos os públicos.

As empresas entenderam que essa é a chave da transformação. Mas não basta apenas incluir. É preciso respeitar o ser humano apenas como ser humano.

 

Produção e edição

 

 

 

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