Bate-papo sobre o futuro das relações de trabalho, com Maira Habimorad, diretora Acadêmica e de Inovação do Ibmec – PARTE 2
Por Guilherme Alferes e Juliana de Moraes


Divulgação

Sincodiv-SP Online: Dois anos após a aprovação da Reforma Trabalhista, você acha que ela foi positiva para o país?

Maira Habimorad: A perspectiva de que a Reforma Trabalhista acabaria com o desemprego é uma visão, no mínimo, míope, porque o desemprego é multifatorial. Nunca achei que fosse diminuir o desemprego de fato, a não ser que houvesse uma mudança no cenário econômico. Sou economista, acho que o dinheiro move o mundo, então, se não há mudança nesse cenário, nada vai acontecer.

Agora, penso que ela trouxe ganhos importantes. O principal deles é na questão dos processos trabalhistas. Isso conseguimos mensurar, e a queda foi realmente significativa.

Se você olhar dezembro de 2017 e dezembro de 2018, houve uma queda de 36% dos processos trabalhistas. Quem tinha processo conseguiu vê-lo julgado com um pouco mais de velocidade e as pessoas estão conscientes na hora de dar entrada numa ação, o que acho maravilhoso, inclusive para a própria pessoa quando pensamos sistemicamente.

Tudo é precificado. Se a empresa gasta com processo trabalhista, indenização, escritório, time jurídico, vai sobrar menos dinheiro para pagar salários e contratar gente. No final das contas, quem paga essa conta também é o trabalhador. Eu vejo que esse é um ganho sistêmico, de legitimidade e bem importante.

Em resumo, sou a favor da Reforma, ainda que imperfeita, porque não é possível que uma legislação de 70 anos atrás continue sendo capaz de regulamentar e reger uma realidade de trabalho completamente diferente do contexto no qual ela foi criada. Agora, os ganhos que a Reforma pode trazer a longo prazo, quem viver, verá.

Temos bons sinais, mas esse é o ponto de vista de alguém que pensa de forma liberal e, a partir disso, tem toda uma visão de mundo.

 

Sincodiv-SP Online: Agora, falando mais das relações dentro das empresas, o que você considera preciso fazer para gerir melhor a mistura de gerações?

Maira Habimorad: Ações neste sentido já acontecem porque as pessoas estão trabalhando por mais tempo. Falamos para os líderes que eles precisam entender os jovens; e dizemos aos jovens que eles precisam entender que as empresas têm seus processos e eles podem ser lentos, mas faz-se pouca coisa para promover o diálogo.

A maioria das formações e treinamentos acontecem separando os grupos e não juntando. Há uma questão conceitual de falarmos muito "você precisa entender ele e ele precisa entender você", quando a orientação deveria ser "se entendam, convivam, façam pactos, conversem". Esse é um aspecto.

Outro aspecto é achar que esse jovem que chega no mundo do trabalho é um "marciano", que veio num disco voador, portanto não sabemos de onde vieram e como lidar, pois, são imediatistas etc.

Eles são nossos filhos, nossos sobrinhos, alunos, enteados, são fruto dessa sociedade a qual a gente lidera, como adultos. Esse co-comprometimento tem a ver com a solução do problema, ao invés de só ficarmos reclamando uns dos outros.

 

Sincodiv-SP Online: Para encerrar, gostaríamos que comentasse a seguinte afirmação: "Para o estudioso Jeffrey Pfeffer, de Stanford, o novo mundo do trabalho – tomando por base o formato que vem sendo adotado especialmente no Vale do Silício (de muita flexibilidade para todos os envolvidos) – não se mostra saudável para empregados ou empresas no correr do longo prazo. De acordo com ele, as pessoas precisam de alguma estabilidade – e acolhimento – para manter a produtividade e não terem sua saúde mental e física consumidas de forma negativa."

Maira Habimorad: Eu gosto do Pfeffer. O mais importante que ele diz é o seguinte: quando a gente regulamenta o trabalho entendendo que o trabalhador e a pessoa são diferentes, estamos cometendo um erro. Ao sair para o trabalho, levamos tudo: o profissional, a pessoa, nossas alegrias e nossos problemas. Somos seres vinculares, precisamos de pertencimento e convivência.

Quando eu digo que vida pessoal vem junto para o trabalho, eu estou querendo dizer que trazemos conosco nossas questões emocionais, psicológicas e isso também tem de ser contemplado nas políticas e conversas do trabalho.

Ele está dizendo, e eu concordo, é que mais autonomia vem com mais responsabilidade. É como aquela história antiga do celular, que as pessoas diziam:  agora com o celular, eu posso trabalhar de qualquer lugar. Isso é verdade, mas se você não dosar, acaba trabalhando o tempo inteiro.

Por isso não existe uma fórmula única. Precisamos dar a flexibilidade para a própria flexibilidade. Quando ela é engessada, não funciona.

Algumas empresas adotam o happy friday*, que é quando se pode sair às 16h na sexta-feira, mas a efetividade da política se perde um pouco se o colaborador leva "bronca" porque permaneceu no trabalho depois desse horário numa sexta-feira...

A ideia não é ser flexível para a pessoa ficar "happy" em sua "friday"?! Permita-se que fique happy no trabalho se essa for a escolha...Eu acho que muito do que se erra a mão é criar políticas de flexibilização que engessam de um outro jeito.

No fim, o que mais precisamos é de premissas básicas para todos, mas com um olhar individualizado das lideranças para cada profissional com que se relaciona em sua equipe.

* Sexta-feira feliz

 

Produção e edição

Voltar

Nenhum comentário



Nenhuma foto


...(omitted for brevity)...