Bate-papo sobre o futuro das relações de trabalho, com Maira Habimorad, diretora Acadêmica e de Inovação do Ibmec
Por Guilherme Alferes e Juliana de Moraes


Divulgação

No decorrer das últimas décadas, avanços tecnológicos marcaram de forma importante a vida humana, e dentre os campos afetados por essas mudanças está, inevitavelmente, o do trabalho.

De acordo com Maira Habimorad, ex-CEO e atual membro do Conselho da Cia de Talentos e diretora Acadêmica e de Inovação do Ibmec, três forças vão nortear o futuro do trabalho: flexibilidade, aumento da autonomia - decorrente da horizontalização de estruturas - e, por outro lado, mais responsabilidades e a multiplicidade de papéis e carreiras.

Como contraponto, Maira prenuncia que os salários menores ficarão ainda mais baixos ou até desaparecerão. Na outra ponta, salários maiores tendem a aumentar, assim como o abismo entre ricos e pobres, um problema que pode ser minimizado com políticas públicas.

Nesta entrevista ao Sincodiv-SP Online, Maira analisa a conjuntura atual e opina sobre o futuro do trabalho no Brasil e no mundo.

 

Sincodiv-SP Online: Para iniciarmos, como você enxerga o futuro do trabalho? 

Maira Habimorad: Essa é uma pergunta bem ampla, mas existem três forças principais que convidam as relações de trabalho a serem repensadas. A primeira é a flexibilidade. O mais próximo que já temos em relação a isso, inclusive na própria Reforma Trabalhista, é a regulamentação do home office, tendência que vai crescer e ajudar a repensar as relações de trabalho.

A segunda é o achatamento das estruturas, o que vai fazer com que profissionais inseridos neste contexto tenham mais autonomia. Ou seja, as relações hierárquicas, de chefia e subordinação, que a gente conhece, também terão de ser repensadas.

O terceiro ponto é a questão da multiplicidade de papéis e carreiras. Está ficando cada vez mais difícil encontrar pessoas que tenham uma única carreira ou atividade. Essa multiplicidade também tem a ver com uma necessidade de educação contínua.

A lógica da vida de três ciclos (25 anos estudando, depois 40 anos trabalhando e aposentadoria) como a gente conhece já está sendo desconstruída.

 

Sincodiv-SP Online: Já que falou sobre home office, como acha que será o impacto dessas práticas para as gerações mais jovens, já que perderão o contato mais próximo/presencial com os profissionais mais experientes?

Maira Habimorad: Todas as modalidades de trabalho têm perdas e ganhos. Essa é uma eventual perda, não só de orientação, mas da convivência, do pertencimento e do aprendizado tácito.

Os modelos de desenvolvimento de pessoas e habilidades dizem que 70% do aprendizado acontecem no trabalho, fazendo as coisas, então pode ser que haja a perda. Por outro lado, ganha-se na disciplina, na autogestão, que é algo que é pouco desenvolvido quando se tem alguém supervisionando o tempo todo.

 

Sincodiv-SP Online: Considerando o impacto da automação no trabalho, quais são os possíveis cenários para o aumento ou diminuição no número de empregos?

Maira Habimorad: Todo tema que deixa as pessoas preocupadas vira fonte de especulação e sempre há gente fazendo tempestade para vender guarda-chuva, então temos que olhar para os estudos sérios e analisar.

A McKinsey & Company* tem um instituto global de estudos ligados ao universo de negócios, e num  trabalho que fizeram sobre o assunto traz dois dados importantes, o primeiro é que somente 10% das funções podem ser quase 100% automatizadas, no entanto, 50% das atividades contidas dentro de uma função podem ser automatizadas, então isso significa que, no fim do dia, cerca de 50% do que todo mundo faz é passível de automação.

Isso nos coloca duas realidades. Realidade número um: temos que aprender a conviver com as máquinas e robôs, e fazer com que eles façam parte das nossas vidas.  Realidade número dois: precisamos nos qualificar para exercer melhor os 50% que irão nos caber.

Vários professores no Ibmec me perguntam: Maira, você acha que os professores vão ser substituídos por robôs? E, eu digo: depende, se você dá aula como um robô, provavelmente sim.

Você confia mais numa conta que eu fizer de cabeça ou numa feita pelo programa Excel?! Eu confio mais no Excel, robôs são muito melhores em fazer contas, mas eles não têm a empatia que eu tenho, então eu quero ter o máximo de empatia que eu puder na construção das relações.

O cenário, na minha opinião, é muito menos negro do que parece, contanto que as pessoas tenham fluência digital, saibam viver com a automação e se tornem os melhores humanos que elas podem ser.

O segundo dado sobre o estudo é que ele mostra que em todos os setores - seja da indústria, de serviço, bancário, varejo etc - haverá perda de postos de trabalho e funções, ao passo que surgirão outros, como sempre aconteceu ao longo da história.

Não fosse assim, ainda estaríamos catando milho com a mão, o que não acontece.

* McKinsey & Company é uma empresa de consultoria empresarial norte-americana.

 

Sincodiv-SP Online: Por conta da automação, as pessoas terão que se qualificar mais para trabalhar. Sobre salários, os profissionais que – usando um termo grosseiro – sobrarem no mercado, vão ganhar mais?

Maira Habimorad: Agora vou fazer futurologia (risos). O que eu acho é que os salários menores não vão nem diminuir, eles vão é desaparecer ao longo do tempo!

Cada vez menos, haverá gente fazendo trabalhos automatizados e repetitivos, em que estão, normalmente, os menores salários. Ao mesmo passo, os maiores salários ficarão ainda maiores. Então, o que vejo – e esse é o grande drama – é o aumento de desigualdade.

 

Sincodiv-SP Online: No Brasil, as classes econômicas mais baixas comportam a maioria da população. Você acredita que terá espaço para encaixar todas essas pessoas nessa nova lógica?

Maira Habimorad: Eu acho que sim.

Para solucionar essa questão, dou um exemplo bacana sobre como a gente [Ibmec] tem um projeto chamado Laboratoria, que é uma startup social focada em mulheres.

São selecionadas pessoas que, muitas vezes, não terminaram nem o Ensino Médio, ou seja, estão no pior cenário possível, e é feita a capacitação durante seis meses para especialização em programação de computador front end, por exemplo.

Essas mulheres que não conseguiam um emprego para ganhar R$ 900 reais como caixa de supermercado, saem empregadas ganhando R$ 4 mil. E isso porque elas são geniais? Não, mas porque ensinou-se algo para qual há demanda.

 

Sincodiv-SP Onliune: Ou seja, o correto seria transportar uma ideia como essa para um projeto nacional?

Maira Habimorad: Sim. Os países que estão levando isso a sério, como a Coréia do Sul, por exemplo, têm um projeto intencional de educação básica e de upskilling e reskilling da força de trabalho. Upskilling é qualificar alguém que já sabe algo, e o Reskilling significa ensinar algo novo para uma pessoa quando se sabe que a atividade dela vai deixar de existir.

Imagine o quão importante é preparar essa turma que vai ver sua atividade profissional desaparecer, como os caixas de supermercado e de banco, por exemplo, para aprenderem algo novo e conseguirem fazer um trabalho mais intelectual e menos substituível? 

O ponto é que a gente não tem isso. Aqui no Brasil, está cada um à própria sorte.

 

Para ler a última parte da entrevista, acesse Bate-papo sobre o futuro das relações de trabalho, com Maira Habimorad, diretora Acadêmica e de Inovação do Ibmec – PARTE 2

 

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