Especial Mckinsey – Mulheres no mercado de trabalho: um campo de jogo desigual
Por Alexis Krivkovich, Marie-Claude Nadeau, Kelsey Robinson, Nicole Robinson, Irina Starikova e Lareina Yee*


Sincodiv-SP/Sarro Comunicação

Muitos fatores contribuem para a falta de diversidade de gênero nos ambientes de trabalho, de acordo com o estudo Women in the Workplace 2018 (Mulheres no Trabalho 2018, na tradução livre), um estudo realizado pela LeanIn.Org e McKinsey sobre a participação feminina no mercado de trabalho na América.  

O relatório elaborado pelas instituições sobre o último ano apresenta mais de perto alguns desses pontos. Além de questões como apoio administrativo e acesso a líderes seniores, é interessante observar algumas áreas que desempenham um papel importante para a questão – incluindo a discriminação cotidiana, o assédio sexual e a experiência de ser a única mulher na sala.

Discriminação

Todos os dias o sexismo e o racismo, também conhecidos como microagressões, podem assumir muitas formas. Alguns podem ser sutis, como quando alguém erroneamente assume que um colega de trabalho é mais júnior do que realmente é. Alguns são mais explícitos, como quando alguém diz algo humilhante para um colega de trabalho.

Seja intencional ou não, as microagressões sinalizam desrespeito. Elas também refletem a desigualdade – enquanto qualquer um pode estar na extremidade receptora do comportamento desrespeitoso, as microagressões são direcionadas a pessoas com menos poder (em quase todos os casos), como mulheres, pessoas negras, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

Para quase dois terços das mulheres, as microagressões são uma realidade no local de trabalho, segundo o estudo. Mais comumente, as mulheres precisam fornecer mais evidências da sua competência do que os homens e têm seu julgamento questionado mesmo em sua área de especialização.

Elas também são duas vezes mais propensas que os homens a serem confundidas com alguém em um cargo mais júnior. As mulheres negras, em particular, lidam com uma variedade maior de microagressões e são mais propensas do que outras mulheres a ter seu julgamento questionado em sua área de especialização, assim tendo que fornecer evidências adicionais de sua competência.

As mulheres gays experimentam novos problemas: 71% já lidaram com microagressões. A natureza desses encontros é frequentemente diferente para elas: mulheres gays têm muito mais probabilidade do que outras mulheres de ouvir comentários humilhantes no local de trabalho sobre si mesmas ou sobre outras pessoas como elas. Elas também são muito mais propensas a sentir que não podem falar sobre suas vidas pessoais no trabalho.

Essas experiências negativas se somam. Como o próprio nome sugere, as microagressões podem parecer pequenas quando tratadas uma a uma. Mas, quando repetidas ao longo do tempo, têm um grande impacto: as mulheres que experimentam microagressões veem seus locais de trabalho como menos justos e têm três vezes mais chances de pensar regularmente em deixar o emprego do que as mulheres que não o sofrem.

Assédio sexual: duro de admitir, mas uma realidade insistente

O assédio sexual continua a permear o local de trabalho. Um total de 35% das mulheres participantes da vida profissional na América já experimentou assédio sexual em algum momento de suas carreiras, desde ouvir piadas machistas até serem tocadas de maneira imprópria.

Para algumas mulheres, a experiência é muito mais comum. Isso ocorre com 55% das mulheres na liderança sênior, 48% das mulheres gays e 45% das mulheres em áreas técnicas.

Uma linha comum conecta esses grupos: a pesquisa descobriu que mulheres que não se conformam às expectativas femininas tradicionais – neste caso, mantendo autoridade, não sendo heterossexuais e trabalhando em campos dominados por homens – são mais frequentemente alvos de assédio sexual.

No papel já está. Falta a prática

No âmbito do estudo, 98% das empresas têm políticas que deixam claro que o assédio sexual não é tolerado, mas muitos funcionários acham que suas empresas estão aquém de colocar políticas em prática.

Apenas 62% dos funcionários dizem que, no ano passado, suas empresas reafirmaram que o assédio sexual não será tolerado, e um número semelhante diz que recebeu treinamento ou orientação sobre o assunto. Além disso, apenas 60% dos funcionários acham que uma reivindicação de assédio sexual seria razoavelmente investigada e abordada por sua empresa – e apenas um em cada três acredita que isso seria resolvido rapidamente.

Há também fortes diferenças em como as mulheres e os homens veem os esforços da empresa para criar um ambiente de trabalho seguro e respeitoso. Apenas 32% das mulheres acham que o comportamento desrespeitoso em relação às mulheres é abordado por suas empresas, em comparação com 50% dos homens.

As mulheres são muito menos confiantes de que a denúncia ao assédio sexual levará a uma investigação justa. E elas são duas vezes mais propensos do que os homens a dizer que seria arriscado ou inútil relatar um incidente.

Esses números indicam a necessidade urgente de as empresas ressaltarem que o mau comportamento é inaceitável e não passará despercebido. Líderes em todos os níveis devem definir o tom afirmando publicamente que o assédio sexual não será tolerado, modelando o comportamento inclusivo.

As equipes de RH devem receber treinamento detalhado para que saibam investigar com cuidado e compaixão as alegações de assédio, mesmo que envolvam líderes seniores. E as empresas se beneficiariam da implementação de um processo de auditoria para garantir que as investigações sejam completas e que as sanções sejam apropriadas.

 

Este é um extrato editado do Women in the Workplace 2018, um estudo realizado pela LeanIn.Org e McKinsey. Baseia-se nos relatórios Women in the Workplace de 2015, 2016 e 2017, assim como em pesquisas semelhantes realizadas pela McKinsey em 2012. Para obter mais informações, visite https://womenintheworkplace.com/.

1. É importante notar que a prevalência de assédio sexual relatada nesta pesquisa pode ser menor do que a que algumas mulheres trabalhadoras experimentam. Esta pesquisa se concentra em funcionários em tempo integral no setor corporativo versus toda a economia, e, devido à natureza do assédio sexual, é frequentemente subnotificada.

Sobre os autores

Alexis Krivkovich e Irina Starikova são sócios do escritório da McKinsey no Vale do Silício; Marie-Claude Nadeau e Kelsey Robinson são parceiras no escritório de São Francisco, onde Nicole Robinson é consultora e Lareina Yee é sócia sênior.

Para conferir a primeira parte desta série, acesse: Especial Mckinsey – Estudo destaca evolução de mulheres no local de trabalho em 2018

Na próxima semana, confira a terceira e última parte da matéria Especial Mckinsey.

 

*Tradução e revisão

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