Hora de repensar o modelo de liderança para Gestão Ambiental
Por Luiz Henrique Lopes Vilas



Estamos vivendo um momento bem interessante – para não dizer complicado -, marcado pela ausência de liderança. Quantas lideranças estão completamente perdidas na condução de crise por falta de alinhamento e, principalmente, de ações nada assertivas que não transmitem nenhuma segurança para as pessoas?

No tocante à gestão ambiental nas empresas, a liderança é particularmente ainda mais importante, pois envolve processos, regras a serem seguidas à risca e multas pesadas para aquelas organizações que não cumprem a legislação ambiental.

Tem que haver transparência, diálogo e a possibilidade de troca de informação entre quem está na base da operação e quem está no topo. É preciso a possibilidade de estabelecer um processo conjunto e não a imposição de algo de cima para baixo. Isso porque quem está no dia a dia da operação é que sabe o quanto pode ser difícil implementar um processo.

As pessoas que estão na base têm que participar dessa construção. E isso cabe à liderança. São os líderes que darão as diretrizes e a abertura, ou não, para uma participação abrangente (gestão participativa), permitindo que as pessoas se sintam parte de todo o processo.

A retomada gradual da economia é uma oportunidade única de repensar modelos de liderança, e, com isso, tentar trazer as pessoas mais para dentro do negócio, fazer com que elas se sintam mais proprietárias, tanto das próprias funções, quanto do próprio negócio.  Sabe-se que isso faz toda a diferença para o sucesso de uma gestão, inclusive a ambiental.

No caso das concessionárias de veículos, particularmente, o tema gestão ambiental costuma ser quase sempre indigesto, pois frequentemente é associado apenas às multas com valores astronômicos ou às regras rigorosas impostas pelos órgãos ambientais. De forma geral, os dirigentes estão concentrados nas vendas e pós-vendas e se esquecem da importância de uma boa gestão ambiental e da necessidade de selecionar boas lideranças para a condução dessa área estratégica da empresa.

O papel dos líderes

Cabe à liderança detectar e avaliar a existência de problemas, tomar as decisões adequadas e trabalhar em cima de compliance, ou seja, averiguar de forma minuciosa se a concessionária de veículos realmente atende à legislação ambiental. E caso não atenda, é papel da liderança informar a direção sobre os agravantes se nada for feito.

Infelizmente, há lideranças resistentes em tomar conhecimento sobre os problemas para não terem que tomar a decisão, pois acreditam que aquilo não é o mais importante naquele momento. Talvez até não seja relevante uma rápida tomada de decisão, mas é muito importante que se estabeleça um plano de ação para que, no futuro, a falha seja corrigida, em vez de esquecida ou negligenciada.

As montadoras 

Vamos fazer mea-culpa para as montadoras também, porque elas têm uns programas muito bonitos e legais, mas só no papel, o que desestimula o concessionário a investir em gestão ambiental. Ainda são poucas as empresas que realmente têm um programa ambiental. Posso citar a Toyota (Derape), a Mercedes (Starclass), a Volvo (Programa Selo Verde), cujos programas são auditados todos os anos.

Pelo fato de terem ISO 14001, seria interessante que as montadoras influenciassem no processo de liderança ambiental para que houvesse, realmente, um comprometimento desses stakeholders, que são os concessionários.

Autoexame 

O primeiro passo para essa liderança é realmente tomar conhecimento sobre o que se passa dentro da concessionária, fazer um checklist, um diagnóstico para que possa ter uma noção, mesmo que superficial, daquilo que empresa tem e daquilo que ela não tem, sempre observando o seguinte: eu estou em dúvida? Então, é melhor colocar que não tem. E correr atrás para resolver... porque você sabe, a mente acaba nos enganando e colocando a gente numa posição confortável de, às vezes, até mesmo ter uma confiança enganosa no que fala e acaba equivocadamente acreditando.  

Enfim, passou da hora de as lideranças assumirem seus papéis e tomarem decisões coerentes e responsáveis, comprometendo-se com o meio ambiente e a saúde de todos. É importante dar uma destinação adequada aos resíduos, atender as questões de compliance e compreender os benefícios decorrentes de uma gestão ambiental eficaz, observando que isso leva à redução do desperdício e de custos. Afinal, o que cansa não é o que a gente faz, mas aquilo que fica para trás.

*Gestor Ambiental, Economista, Mestre em Meio Ambiente e Sustentabilidade, Doutor em Business Administration (FCU-Flórida/USA). Professor da Universidade Fenabrave, fundador da Startup AutoVerde (Plataforma de Inteligência Artificial para monitoramento ambiental online) e presidente da Ouro Verde Meio Ambiente e Negócios Sustentáveis (www.ovma.com.br) desde 2002.

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